Alessandro Vieira, que já afirmou ser contra PEC da Blindagem, será relator da proposta no Senado

O senador Alessandro Vieira (MDB-SE) foi nomeado relator da chamada PEC da Blindagem no Senado. A decisão, relatada pelo jornalista Caio

Por Notas & Informações

O senador Alessandro Vieira (MDB-SE) foi nomeado relator da chamada PEC da Blindagem no Senado. A decisão, relatada pelo jornalista Caio Spechoto, da Folha de S.Paulo, não é um detalhe burocrático: é um recado político direto de que a proposta dificilmente prosperará na Casa Alta. Vieira já se declarou abertamente contra a PEC, que restringe operações policiais e inquéritos contra congressistas. O simples fato de alguém com esse posicionamento estar no comando da relatoria coloca em xeque o futuro do projeto que, aprovado de forma acelerada pela Câmara, chegou ao Senado cercado de críticas e rejeição popular.

Chamada por muitos de PEC da Impunidade, a proposta prevê que o Judiciário só possa investigar parlamentares com autorização prévia do próprio Legislativo. Para piorar, a decisão seria tomada em votação secreta, protegendo deputados e senadores do desgaste público. Em outras palavras, seria como entregar ao acusado a chave da cela e ainda apagar as câmeras que registram o ato. Não por acaso, a repercussão nas redes sociais foi imediata e negativa. O público percebeu a manobra como um tapa na cara da moralidade, um retrocesso que mina a confiança já frágil entre sociedade e Congresso.

Nesse cenário, a escolha de Alessandro Vieira como relator cumpre um papel estratégico. Otto Alencar (PSD-BA), presidente da Comissão de Constituição e Justiça, já havia declarado oposição à PEC, e ao entregar a relatoria a Vieira, consolida a intenção de travar a tramitação. O MDB, partido de Vieira, também divulgou nota oficial contra a proposta. Eduardo Braga, líder da legenda no Senado, foi direto ao ponto: trata-se de um mecanismo que busca institucionalizar a impunidade. Uma fala forte, mas que traduz a indignação de parte do Senado em contraste com a atitude de deputados que aprovaram o texto sob pressão e a portas quase fechadas.

O curioso é que a blindagem proposta já existiu no passado, mas foi derrubada em 2001. Ou seja, trata-se de uma tentativa de ressuscitar velhos privilégios que a sociedade brasileira já havia sepultado. Como se não bastasse, o texto atual não prevê qualquer período de transição, o que significa que processos em andamento contra parlamentares poderiam simplesmente ser congelados. Imagine a mensagem que isso passa: políticos que já enfrentam acusações poderiam se ver livres de investigações da noite para o dia, como se houvesse uma borracha mágica passando por cima da lei.

A pressão é evidente. Com as eleições de 2026 no horizonte, poucos querem carregar nas costas a pecha de cúmplice da impunidade. O desconforto já se manifestou de forma explícita: senadores como Eliziane Gama e Randolfe Rodrigues, ainda antes de a PEC chegar ao Senado, chamaram a proposta de retrocesso grave e atentado contra a moralidade pública. Mais significativo ainda foi o movimento da opinião pública nas redes sociais, que não apenas criticou os deputados que apoiaram o projeto, mas expôs nomes, votos e atitudes. Parlamentares como Jilmar Tatto e Pedro Campos sentiram o peso da rejeição digital e correram para se justificar.

Nesse tabuleiro, Vieira se coloca como peça central. Seu posicionamento contra a PEC, aliado ao de Otto Alencar e de parte significativa do MDB, sugere que o Senado pretende impor um freio. Mas é preciso cautela: o histórico mostra que a pressão dos deputados e o temor de novas ações do Supremo contra parlamentares podem, em algum momento, mudar o jogo. Afinal, a política brasileira raramente segue um roteiro previsível.

O fato é que a relatoria de Alessandro Vieira marca uma virada importante. Se por um lado indica resistência à PEC, por outro evidencia o abismo entre o que muitos congressistas desejam e o que a sociedade aceita. A mensagem é clara: o Senado sabe que dificilmente resistiria ao julgamento público caso aprovasse um projeto visto como tentativa descarada de autoproteção.

O Brasil acompanha, atento, mais um embate entre o instinto de sobrevivência política e a necessidade de respeitar princípios republicanos. Vieira, com sua postura crítica, pode se tornar o rosto da resistência a uma PEC que ameaça corroer ainda mais a já frágil credibilidade do Congresso. O relator se torna, portanto, não apenas o árbitro de um texto, mas um símbolo de como a política pode escolher entre ceder aos privilégios ou ouvir a voz indignada das ruas.

Com informações Folha de S.Paulo

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