Amigo de Moraes, Alcolumbre diz que não aceita mais Eduardo Bolsonaro instiga EUA contra o Brasil

Davi Alcolumbre, presidente do Senado Nacional, amigo do ministro Alexandre de Moraes (STF), parece ter descoberto recentemente que existe uma coisa

Por Notas & Informações

Davi Alcolumbre, presidente do Senado Nacional, amigo do ministro Alexandre de Moraes (STF), parece ter descoberto recentemente que existe uma coisa chamada “mundo exterior” e que, de vez em quando, deputados brasileiros podem viajar para lá. Em sua mais recente declaração, o senador do Amapá revelou que não consegue mais tolerar “um deputado federal do Brasil, (Eduardo Bolsonaro) eleito pelo povo de São Paulo, lá nos Estados Unidos, instigando um país contra o meu país”. O efeito dramático foi digno de novela das nove: segure seu coração, Brasil, pois alguém está falando sério! E não importa que Eduardo Bolsonaro esteja apenas defendendo interesses do seu país em um ambiente internacional ou que a diplomacia americana tenha regras próprias. Para Alcolumbre, qualquer iniciativa que não passe pelo crivo do Senado é uma ameaça existencial.

Com todo o respeito que se pode ter por quem confunde política com um episódio interminável de reality show, Alcolumbre emendou que, se for preciso, ele “vai se organizar para responder a todos os questionamentos, à altura, com muito respeito, com muita maturidade”. Uma promessa comovente, que ressoa especialmente se lembrarmos de suas frequentes ausências do plenário. De fato, há quem diga que a polarização política é um problema quando o presidente do Senado parece incapaz de aparecer para presidir sessões ou tomar decisões relevantes. Mas não se preocupe: ele vai responder, eventualmente. Talvez depois de um cafezinho.

O episódio, naturalmente, ganhou cobertura e análise calorosa da velha imprensa, que encontrou em Alcolumbre uma espécie de mártir moderno, ameaçado pelos bolsonaristas e por qualquer um que se atreva a ter opiniões fortes fora do Brasil. Folha de S.Paulo, sempre atenta, não perdeu a chance de transformar um desabafo tardio em uma batalha épica contra “a instigação internacional”. A narrativa é clara: um homem sozinho, bravo e indignado, defendendo o Brasil de seus próprios cidadãos. Pena que, ao mesmo tempo, não há espaço para mencionar que, quando o assunto é transparência, ética ou presença no Senado, o mesmo protagonista não é exatamente exemplar.

Aliás, o histórico de Alcolumbre e de sua família acrescenta uma camada adicional de ironia à cena. O chamado “Dossiê – Os escândalos da família Alcolumbre”, publicado pelo jornalista Allan dos Santos, revela que contrabando de minérios no Amapá nos anos 1980 envolvia membros próximos da família – incluindo tios maternos de Davi, conhecidos por aproveitar a riqueza mineral da região para enriquecimento ilícito. Aviões privados, transporte clandestino de ouro, tantalita e torianita, viagens para Belém, São Paulo, Rio de Janeiro e até Caiena, sem qualquer fiscalização: tudo indicava um esquema sofisticado que só décadas depois começou a ser combatido. Não se trata de acusações isoladas, mas de um histórico que coloca sob suspeita um padrão familiar de ações questionáveis. E, claro, quando um senador se mostra indignado com ações internacionais de outro deputado, não deixa de soar um tanto cômico para quem conhece o passado de sua própria família.

É preciso admitir que Alcolumbre tem talento para o drama. Em nota à imprensa, ele afirmou que estava com problemas estomacais e não poderia comparecer ao Senado. Um detalhe que a Folha transformou em mais uma demonstração de coragem moral: o líder do Senado, mesmo em sofrimento, se prepara para enfrentar a crise política e a polarização, desafiando o mundo de terno e gravata escura. Comovente, se não fosse tragicômico. Afinal, o país enfrenta desafios reais em segurança, economia e política, e o presidente do Senado se ocupa em pontuar agressões verbais e discursar sobre patriotismo conveniente, enquanto evita presença física no próprio plenário.

No fundo, o cenário montado por Alcolumbre é de uma ironia quase shakespeariana: ele acusa Eduardo Bolsonaro de “instigar os Estados Unidos contra o Brasil”, critica o discurso nacionalista do governo e, ao mesmo tempo, protege a própria imagem com declarações de maturidade e respeito, mesmo quando se esquiva das responsabilidades mais básicas de sua função. O contraste entre a indignação pública e a ausência concreta no comando do Senado poderia ser engraçado se não fosse preocupante. E, claro, a velha imprensa de esquerda, sempre pronta para glorificar pequenos gestos como heroísmo cívico, abraça cada palavra do senador, ignorando convenientemente a história de sua família e a falta de ação efetiva em momentos cruciais.

O que resta, então, é o espetáculo: Davi Alcolumbre, presidente do Senado, inflamando-se contra um deputado brasileiro no exterior, enquanto a própria trajetória familiar traz episódios que fariam qualquer cidadão comum questionar a autoridade moral do protagonista. Entre desabafos públicos, problemas estomacais convenientemente cronometrados e dramas retóricos, o senador consegue transformar pequenas divergências políticas em narrativa de grande épico, digno de capa de jornal. E, no meio disso tudo, a imprensa de extrema-esquerda bate palmas, celebrando a indignação, mas silenciosa sobre os contrabandos, as ausências e as inconsistências que realmente impactam o Brasil.

Davi Alcolumbre, portanto, não é apenas presidente do Senado; ele é também mestre na arte de transformar problemas alheios em drama pessoal, usando a indignação seletiva como escudo e a narrativa midiática como palco. Enquanto isso, o país assiste, perplexo, a um episódio de política surreal, onde a crítica internacional é crime, o patriotismo é conveniente e a coerência parece uma virtude opcional.

Com informações Folha de S.Paulo / TimeLine

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