
É preciso reconhecer quando o jornalismo se mantém firme diante da névoa de conveniências políticas que turva a realidade. O artigo de Guilherme Macalossi, – “Anistia foi engolida por acordão do Centrão com o STF” – publicado na sexta-feira, 19, na Gazeta do Povo, mostra a crueza de um país onde a palavra anistia virou apenas moeda de troca, tragada pela voracidade de um acordão entre o Centrão e o Supremo Tribunal Federal. Não se trata apenas de um relato circunstancial sobre a sessão que prometia libertar os presos do 8 de janeiro de 2023; é um retrato doloroso de como a classe política manipula esperanças para consolidar o que realmente lhe interessa: sua própria blindagem.
A clareza com que Macalossi expõe o teatro em Brasília é um alívio em tempos em que a imprensa, muitas vezes, prefere dourar a pílula para não se indispor com os donos do poder. O jornalista não apenas descreve os movimentos de Paulinho da Força, Aécio Neves, Michel Temer e demais personagens dessa ópera bufa; ele revela, com a precisão de um bisturi, a lógica do jogo: não haverá perdão, não haverá esquecimento. Haverá, no máximo, um arranjo cuidadosamente medido para manter o ex-presidente Jair Bolsonaro como figura útil, mas controlada, no tabuleiro político.
O que vemos nesse relato não é a anistia, mas o desmonte da ilusão. O Centrão nunca quis libertar ninguém. O que desejava, e conseguiu, foi garantir a aprovação de uma PEC da Blindagem — um escudo que protege parlamentares da lei e relega a sociedade à condição de mera espectadora. Nesse sentido, os bolsonaristas na Câmara foram reduzidos a coadjuvantes de um enredo previamente escrito. Celebraram cedo demais, acreditaram na promessa de uma vitória e acordaram descobrindo que foram usados como massa de manobra.
Macalossi, em seu texto, traz algo raro: a coragem de afirmar o que muitos preferem sussurrar nos corredores. Ele mostra que o chamado “acordo da anistia” sempre foi uma farsa, construída para alimentar o imaginário de um eleitorado indignado, mas também para servir como instrumento de barganha contra o governo Lula. Com isso, governadores de direita, líderes partidários e figuras históricas como Temer exploraram a narrativa sem jamais acreditar nela. Afinal, quem teria interesse em devolver a Bolsonaro o protagonismo de 2026? Certamente não aqueles que hoje constroem suas próprias pontes eleitorais.
A contundência do artigo lembra o leitor de que, no Brasil, nada se perde: tudo se negocia. A promessa de anistia se transformou em dosimetria, uma palavra técnica que soa neutra, mas que na prática esconde uma punição calculada, não a libertação esperada. É a institucionalização do “cabo eleitoral de luxo”: Bolsonaro condenado, porém útil, amarrado judicialmente, mas mantido vivo como capital político para transferir votos em 2026. Essa engenharia perversa tem a assinatura do Centrão, a bênção de ministros do STF e o aval dos caciques partidários que vivem de acordos de ocasião.
Ao destacar esse jogo, Macalossi presta um serviço que vai além da informação. Ele sacode o leitor para perceber que o problema não é apenas jurídico, mas moral e institucional. Estamos diante de uma classe dirigente que prefere a manipulação ao enfrentamento honesto das crises. Uma classe que se autoprotege em nome de uma democracia cada vez mais esvaziada de conteúdo.
O estilo direto e incisivo do jornalista da Gazeta do Povo, aqui, ecoa a melhor tradição da imprensa crítica, que não teme desagradar aos poderosos. É um convite ao leitor para não se conformar com as versões prontas oferecidas pelo noticiário oficial. Ao contrário, é um chamado para enxergar a engrenagem oculta, aquela que transforma ideais em negociações, esperanças em artifícios, líderes em peões descartáveis.
Parabenizar Guilherme Macalossi por este artigo é reconhecer a necessidade urgente de vozes que apontem a nudez do rei. Seu texto mostra que a anistia não morreu por acaso, mas foi engolida de forma calculada para manter o establishment ainda mais confortável. A mensagem é clara: não haverá indulgência, mas controle. Não haverá liberdade, mas gestão de punições. E é exatamente por trazer à luz essa verdade incômoda que seu trabalho merece ser lido, relido e debatido.
Num Brasil onde a política se converteu em espetáculo de conveniências, jornalistas como Macalossi lembram que ainda é possível fazer diferente: escrever sem medo, denunciar sem hesitar, e convidar o cidadão a olhar além do véu da encenação.
Com informações Gazeta do Povo
















