
Há dias em que a história política nacional desce um degrau a mais na escada rolante da coerência seletiva, e a tarde de 9 de junho de 2025 foi um desses momentos gloriosos. Enquanto os passarinhos cantavam em Brasília e o brasileiro médio se perguntava por que o cafezinho nunca ficou tão caro, Hugo Motta – que, vejam só, preside a Câmara dos Deputados – achou prudente anunciar que a Casa “dará andamento” à ordem do STF para cassar o mandato da hoje ex-deputada Carla Zambelli. Nada de sufrágio universal entre pares, nada de votação simbólica: ordem dada é ordem cumprida, ensinou Motta, ecoando o mais genuíno espírito republicano do “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.
Afinal, por que perder tempo com aquilo que o regimento chama de processo político se existe uma decisão monocrática, ou quase, reluzente, embrulhada para presente pelo ministro Alexandre de Moraes? Para que convocar colegas, abrir contraditório, ouvir suplentes e, quem sabe, refletir cinco minutos sobre o precedente criado? Melhor bater continência, girar nos calcanhares e decretar: “A decisão precisa ser cumprida”. Simples assim.
Mas não nos apiedemos de Zambelli: dez anos de cadeia por falsidade ideológica – crime tão hediondo que, para o Supremo, virou sinônimo de golpe de Estado digital – parecem até suaves diante do novo manual de boas maneiras progressistas. Segundo Moraes, a deputada e o onipresente hacker Walter Delgatti Neto teriam tentado simular um mandado de prisão contra… o próprio Moraes! É quase uma performance artística: o ministro mandaria prender o ministro, Delgatti apertaria Enter, e pronto – o universo colapsaria numa singularidade jurídica onde o réu, o juiz e o carcereiro ocupam a mesma poltrona VIP.
O Supremo, magnânimo, não economizou pedagogia. Condenou Zambelli a dez anos e, como brinde, retirou-lhe o mandato. Afinal, quem precisa de eleitor quando se tem toga? Para a Corte, “unanimidade” não é mero clichê de manchete; é virtude cívica, é sinal de que todos pensam igual e, portanto, pensam certo – uma unanimidade, diria Nelson Rodrigues, tão burra quanto conveniente. Ironias à parte, o colegiado transformou a Câmara dos Deputados em balcão de carimbo, e Motta, sorridente, aceitou o papel de tabelião.
Claro que a história ganhou ingredientes de série policial. Na véspera do fim de semana, Moraes mandou o Ministério da Justiça formalizar o pedido de extradição; o nome de Zambelli saltou para a lista vermelha da Interpol; e logo soubemos que a congressista virara foragida internacional, dançando tarantela em alguma rua da Itália. Que bela imagem para o marketing do turismo europeu! Poder360, diligente, registrou cada passo, horário e vírgula.
Se a novela termina aí? Evidente que não. Horas depois da fuga confirmada, a deputada pediu 127 dias de licença – para quê mesmo? – e seu advogado anunciou que estava fora do caso. Abandono de defesa parece epidemia: todo advogado percebe que lutar contra o Moraes é mais temerário que atravessar a Avenida Paulista de olhos vendados na hora do rush. Para completar a coreografia, a 1ª Turma do STF rejeitou, também por unanimidade, o recurso da congressista. Unanimidade é pop.
Em qualquer democracia madura, tamanho acúmulo de atropelos levantaria sobrancelhas – e, quem sabe, debates sobre separação de Poderes, due process, coisa e tal. Mas, no Brasil de 2025, essas preocupações viraram excentricidades. O Estado de Direito? Um conceito líquido, moldável conforme a necessidade do noticiário. A segurança jurídica? Serve pra quê, se todo dia pode ser reescrito em edição extraordinária?
Digam o que quiserem de Zambelli – impulsiva, polêmica, vulcânica. Porém, quando o Poder Judiciário assume o volante sem ligar o pisca-alerta institucional, até o mais moderado liberal-conservador aperta o cinto. Punições draconianas por crimes não violentos ganham ares de exemplaridade política, e quem vibra com o troféu hoje talvez chore o “excesso” amanhã. Já vimos esse filme em outras latitudes.
Repare na contradição deliciosa: os que em 2019 gritavam “democracia em risco” por uma suposta interferência de tuítes presidenciais agora aplaudem a supressão sumária de ritos parlamentares. Se é para “defender as instituições”, todo atalho vale. A questão não é inocentar Zambelli, mas perguntar se o trem institucional está mesmo nos trilhos quando cada estação muda de lugar conforme o maquinista de toga acha conveniente.
Enquanto isso, Hugo Motta se apresenta num seminário chamado Agenda Brasil – organizado pelo Grupo Globo, essa antologia ambulante de isenção – e classifica o caso como “atípico, sem precedente”. Ora, deputado, “atípico” é pouco: estamos diante de um blueprint para futuros expurgos. Quando o alvo for outro, mutuamente contrário ao establishment do momento, que desculpa restará à Câmara? Engolir de novo o discurso pronto do STF? Ou arriscar-se ao crime de hermenêutica?
E a imprensa? Na cobertura da cassação relâmpago, muitos portais trataram o episódio como mera formalidade, quase um rito litúrgico que a política deve cumprir com devoção. O mesmo Poder360 – aquele que se orgulha de “contextualizar o poder” – limitou-se a citar declarações e carimbar o selo de veracidade oficial. Pouco ou nada se questionou sobre como, em menos de um mês, passamos da denúncia à ordem de extradição, com direito a agências policiais estrangeiras na jogada. Transparência é isso ou é o PowerPoint do Dallagnol?
De qualquer modo, a lição está dada: se você ousar afrontar um ministro do Supremo, esteja pronto para virar personagem de thriller transnacional. Se, além disso, você abraçar pautas conservadoras, exibir a bandeira brasileira e defender o livre mercado – pior ainda – será enquadrado como ameaça existencial. Mas não se preocupe: o sistema garante que todo processo será “republicano” e “constitucional”.
Curioso observar como a pauta de costumes, tão cara aos conservadores, encontra hoje um adversário inusitado na <ins>judicialização absoluta</ins> da política. Quando juízes decidem quem pode ou não ocupar cadeira eleita, pouco importa se seu deputado defende a vida, a família, a propriedade ou o livre-mercado de investimentos em criptomoedas – tema de altíssimo CPC –, pois a régua muda conforme o cliente.
No fim do dia, resta ao eleitor paulista que apoiou Zambelli a gratificante sensação de ser figurante: votou, acompanhou, engajou, mas quem manda mesmo decidiu que sua opção era inválida. E se amanhã o STF resolver que alguns senadores de esquerda também violaram a liturgia, veremos as mesmas palmas? Duvido. Já terá passado a moda da punição sumária; aí, todos descobrirão o charme do “amplo direito de defesa”.
Enquanto isso, nós, no Conservadores Online, seguimos perguntando o óbvio ululante: quem vigia os vigilantes? Onde está a contenção recíproca entre Poderes que Montesquieu jurou existir? E por que só há urgência quando o alvo tem sobrenome ligado à direita? Perguntas retóricas, eu sei.
Mas fiquemos otimistas: talvez, após este espetáculo, o brasileiro acorde para a necessidade de um Estado mínimo em que ministros supremos não acumulem papel de legislador, xerife, carcereiro e oráculo moral. Talvez, cansado de ver a Constituição virar massinha de modelar, o eleitor exija reformas que blindem a liberdade de expressão, a presunção de inocência e o voto popular contra a sanha “exemplar” de tribunais politizados.
Se a cassação relâmpago de Carla Zambelli servirá para algum bem, que seja este: escancarar que a toga, quando usada como espada, corta a própria democracia. E, como bons liberais-conservadores, seguiremos defendendo – sem pedir licença aos iluminados de toga – a velha e incômoda ideia de que não há liberdade sem limites ao poder de quem julga.
Com informações Poder 360
















