
Às vésperas de deixar a presidência do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso se apresentou mais uma vez como um personagem de contradições. Em declarações destacadas pela reportagem assinada por Ana Pompeu, José Marques e Cézar Feitoza, publicada na sexta-feira, 26, pela Folha de S.Paulo, o ministro tentou sustentar a imagem de apego ao Brasil, ao mesmo tempo em que revelou ter recebido convites de instituições acadêmicas dos Estados Unidos. O problema é que essa narrativa se choca diretamente com a realidade: o visto de Barroso foi cancelado pelo governo norte-americano após sanções impostas a ministros alinhados a Alexandre de Moraes. Esse detalhe, que deveria ser central, foi tratado como nota de rodapé, quando na verdade expõe um desconforto internacional sem precedentes para integrantes da mais alta corte do país.
Ao se dizer surpreso com a aplicação da Lei Magnitsky a Moraes, Barroso tenta emplacar a ideia de que tais medidas são desproporcionais. Mas a verdade é que essas sanções representam um recado claro: a comunidade internacional não vê mais nos ministros do STF a imparcialidade que deveriam encarnar. A imagem projetada ao exterior é de juízes que ultrapassaram limites constitucionais, interferindo em processos políticos, restringindo liberdades e assumindo um papel que extrapola suas funções. O cancelamento do visto é mais do que uma formalidade diplomática. É um atestado de desgaste ético e de descrédito político.
Não bastasse, Barroso admitiu que sugeriu ao presidente Lula a contratação de um escritório de lobby nos Estados Unidos, reconhecendo de forma explícita que a diplomacia brasileira não tem mais portas abertas em Washington. A proposta, que ele tentou naturalizar, é emblemática. Mostra que até mesmo ministros do Supremo estão cientes de que o governo petista enfrenta isolamento, e que a única alternativa seria comprar influência no país de Donald Trump. É, no mínimo, paradoxal que um magistrado, cuja função deveria ser a de preservar a Constituição e a institucionalidade, recomende práticas associadas ao poder econômico e à pressão política no exterior.
Nas entrelinhas de sua fala, Barroso tenta construir a narrativa de pacificação nacional, como se tivesse conduzido o Supremo em busca de conciliação. Mas os fatos recentes desmentem essa retórica. Durante sua gestão, o tribunal se consolidou como um protagonista de tensões políticas, criminalizando opositores, atropelando debates no Congresso e impondo decisões de enorme impacto social sem legitimidade popular. O próprio ministro reconhece que deixou a presidência sem pacificar o país, atribuindo a responsabilidade aos julgamentos do 8 de Janeiro e do chamado golpe. A versão é conveniente, mas ignora que a falta de pacificação nasce justamente da percepção de que a corte atua como braço político de uma agenda ideológica.
A tentativa de reescrever a própria história chega ao auge quando Barroso celebra seu empenho em impedir o voto impresso. Sob o pretexto de proteger a democracia, o ministro se vangloria de ter barrado uma medida que teria ampliado a transparência e a confiança no processo eleitoral. O argumento de que a impressão do voto abriria brechas para fraudes é, no mínimo, contraditório. Afinal, o mecanismo serviria justamente para conferir maior segurança ao eleitor, garantindo a possibilidade de auditoria independente. A recusa sistemática do STF e do TSE em aceitar esse debate apenas reforça a desconfiança de milhões de brasileiros que, ao contrário do que Barroso sugere, não são “radicais”, mas cidadãos comuns que desejam eleições confiáveis.
A fala sobre impeachment de ministros do Supremo expõe outra incoerência. Barroso defende que o processo não pode ser usado como “produto de prateleira”, mas admite que, mesmo aprovado pelo Senado, o próprio Supremo poderia anular o julgamento. Em outras palavras, coloca o tribunal acima de qualquer mecanismo de controle republicano, instaurando uma espécie de blindagem autoinstitucional. É uma visão de poder absoluto, que não encontra respaldo no espírito da Constituição, mas que serve aos interesses de quem se habituou a governar sem prestar contas à sociedade.
Enquanto posa de patriota ao dizer que prefere o Brasil, Barroso se esquiva da realidade de que sua credibilidade internacional está abalada, que sua gestão à frente do Supremo foi marcada por divisões profundas e que sua atuação política transbordou os limites de sua toga. O episódio do visto cancelado é um símbolo poderoso: não se trata de mera burocracia, mas de um sinal de que até mesmo fora do país se enxerga a deterioração institucional promovida por um tribunal que deveria ser guardião da democracia e não protagonista de disputas ideológicas.
Ao tentar encobrir esse constrangimento com declarações de afeto ao Brasil, o ministro apenas reforça a sensação de que estamos diante de narrativas cuidadosamente elaboradas para esconder o essencial. O povo brasileiro merece clareza, transparência e instituições que sirvam ao país, e não ministros que, ao perderem legitimidade dentro e fora do território nacional, buscam disfarçar a crise de confiança com discursos de ocasião.
Com informações Folha de S.Paulo
















