
Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados, acaba de nos brindar com mais um capítulo da ficção política que insiste em chamar de realidade. Naquilo que poderia ser considerado um golpe de criatividade — se não fosse tragédia —, Motta indicou Paulinho da Força, conhecido sindicalista com ligações estreitas à extrema-esquerda, como relator do projeto de lei que trata da ANISTIA aos condenados do 8 de janeiro de 2023, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro. É curioso como certas decisões conseguem ser ao mesmo tempo previsíveis e absolutamente desconcertantes. Para Motta, aparentemente, equilíbrio e proximidade com ministros do Supremo Tribunal Federal são suficientes para blindar qualquer suspeita de parcialidade. A Folha de S.Paulo, em seu tom sempre tão imparcial quanto um meme político de quinta-feira, reforça a narrativa de que Paulinho conduzirá o processo com a “isenção necessária”. Realmente, nada mais confiável do que nomear alguém intimamente ligado a Alexandre de Moraes e à própria extrema-esquerda para julgar questões que envolvem a democracia e a punição de crimes graves.
O espetáculo que se segue é digno de nota: o sindicalista que passou a vida combatendo interesses opostos ao de Bolsonaro agora se torna o mediador das penas daqueles que atentaram contra o Estado democrático de Direito. Um detalhe que a velha imprensa, especialmente aquela especializada em redações moralistas, prefere suavizar, é o fato de que Paulinho da Força não é apenas um relator neutro. Ele é, nas entrelinhas, um negociador de bastidores com o STF e o Planalto, pronto para reduzir penas, ajustar prazos e, essencialmente, temperar a lei ao gosto do centrão, tudo sob o pretexto de “solução pacificadora”. A narrativa oficial é um clássico da retórica: a redução de penas é um ato humanitário, não uma manobra política que, convenhamos, beira o surreal quando se trata de crimes de abolição violenta do Estado democrático e golpe de Estado.
Motta, em seu papel de maestro dessa ópera cômico-trágica, afirma que Paulinho conduzirá os trabalhos com equilíbrio e respeito às instituições. Se isso soa como ironia, é porque é. É impossível ignorar que a escolha atende a interesses específicos, e não ao senso de justiça ou à integridade do processo legislativo. A suposta neutralidade do relator é tão sólida quanto papel molhado em chuva forte. A Folha, por sua vez, descreve o cenário como se fosse uma negociação de paz, ignorando convenientemente que estamos falando de redução de penas para crimes que abalaram os alicerces da própria democracia brasileira. A sutileza é tanta que a imprensa da esquerda radical consegue transformar redução de penas em gesto de moderação.
O ponto mais surreal dessa farsa é a estratégia de Motta em convencer a esquerda a aceitar penas menores. Não para punir menos os culpados por conveniência legislativa, mas para evitar que uma anistia ampla, que beneficiaria até o ex-presidente Bolsonaro, se torne pública. É um jogo de xadrez político onde cada peão move-se sob a orientação de um rei que, ao que tudo indica, prefere parecer prudente a ser responsável. O que se apresenta como um ato de equilíbrio é, na realidade, uma coreografia de conveniências políticas, com Paulinho da Força como dançarino principal, conduzindo a música que Hugo Motta escolheu tocar.
Enquanto isso, o público observa atônito, e a velha mídia, sempre pronta a moldar percepções, insiste em tratar o processo como algo racional e equilibrado. A Folha, fiel ao seu estilo, prefere destacar que Paulinho poderia apresentar o parecer rapidamente, enfatizando eficiência em vez de imparcialidade. É quase poético: a pressa em reduzir penas é celebrada, enquanto a seriedade do ato é soterrada sob camadas de justificativas institucionais e humanitárias. A ironia final é que todos parecem esquecer que estamos falando de crimes graves, conspiradores contra a própria democracia, e ainda assim transformados em meros detalhes negociáveis.
A designação de Paulinho da Força pelo presidente da Câmara revela, acima de tudo, uma Câmara disposta a rir da gravidade de seus próprios atos. É uma lição de sarcasmo institucional: quando o protagonista da anistia é alguém ligado à extrema-esquerda e aos tribunais, a narrativa de equilíbrio soa tão convincente quanto uma piada de mau gosto. E a imprensa da velha guarda? Continua aplaudindo o espetáculo, transformando o absurdo em normalidade e ensinando a todos nós que, no Brasil de hoje, o teatro da política é mais convincente do que a própria justiça.
Com informações Folha de S.Paulo
















