Relator da Anistia e aliado de Moraes, Paulinho da Força, afirma que não vai salvar Bolsonaro

O Brasil político parece ter entrado numa peça tragicômica mal ensaiada, na qual personagens de segunda linha tentam assumir o protagonismo

Por Notas & Informações

O Brasil político parece ter entrado numa peça tragicômica mal ensaiada, na qual personagens de segunda linha tentam assumir o protagonismo de uma história que nunca foi deles. O deputado Paulinho da Força, recentemente promovido a relator da anistia pelo presidente da Câmara, Hugo Motta, surge mais uma vez como aquele figurante que insiste em roubar a cena, ainda que o roteiro já esteja gasto. Em entrevista à velha imprensa, mais especificamente ao sempre austero e seletivo “O Globo”, Paulinho vestiu a toga de árbitro da pacificação nacional, prometendo nada menos que a construção de um “consenso”. Uma palavra, convenhamos, que na boca de um sindicalista profissional da política soa como uma piada de mau gosto.

Segundo ele, a tal “anistia ampla e irrestrita” já estaria “superada”. O detalhe curioso é que ninguém avisou o povo brasileiro sobre essa superação. O que se vê, na verdade, é uma população que ainda aguarda respostas reais sobre o que de fato aconteceu em 8 de janeiro e por que tantos cidadãos continuam presos em condições degradantes, enquanto parlamentares absolvidos de escândalos milionários com o BNDES posam de pacificadores. Sim, estamos falando do mesmo Paulinho que em 2020 havia sido condenado a mais de dez anos de prisão por envolvimento em contratos suspeitos que somavam R$ 524 milhões, apenas para ser “salvo” em 2023 por uma reviravolta no STF. Coincidência, é claro.

A entrevista de Paulinho é um exercício de ironia involuntária. O relator da anistia, que não consegue sequer explicar o que pretende escrever em seu relatório, afirma que não pode “individualizar” para salvar Jair Bolsonaro. Ora, que alívio para Bolsonaro: afinal, quem em sã consciência gostaria de ser salvo por Paulinho da Força? A julgar pelo histórico, tal “salvação” provavelmente custaria meio bilhão em contratos nebulosos e uma boa dose de indulgência do Supremo.

Não é preciso esforço para perceber o jogo de cena. Paulinho fala em “agradAR a todos” — esquerda, direita, Congresso, STF, governo — como se a política fosse um churrasco de domingo em que basta distribuir linguiça para contentar os convivas. O problema é que o prato servido pelo relator vem temperado pela receita conhecida: o poder judiciário absolvendo velhos conhecidos, a imprensa empacotando a história como narrativa oficial e o povo, claro, ficando com a conta.

A cobertura de “O Globo” sobre essa entrevista é outro espetáculo à parte. O jornal trata Paulinho como uma espécie de guardião da democracia, ignorando que, até ontem, o deputado era acusado de participar de um esquema bilionário de corrupção. Como confiar no árbitro que já foi flagrado trapaceando no próprio jogo? A resposta é simples: basta colocar o carimbo da velha imprensa e o selo do Supremo. Se o STF absolve, “O Globo” canoniza. E assim o ciclo se retroalimenta.

Enquanto isso, Paulinho posa de construtor da paz. Fala em conversar com ministros do Supremo, com líderes do Senado, com a Casa Civil, com qualquer um que se sinta “incomodado”. É a versão parlamentar da velha prática sindical: prometer diálogo infinito sem entregar resultado concreto. O povo brasileiro, no entanto, não precisa de diálogos de bastidores. Precisa de clareza, justiça e um país que não trate cidadãos como inimigos de guerra.

A narrativa de Paulinho, ecoada por veículos como “O Globo”, tenta vender a ideia de que a anistia seria uma espécie de terapia coletiva para curar as feridas da “extrema-direita” e da “extrema-esquerda”. Mas, curiosamente, só um lado continua apanhando. Os presos de 8 de janeiro continuam mofando, enquanto a velha guarda do sindicalismo e da política fisiológica aparece como a voz da “pacificação”. É o cúmulo da ironia: transformar o beneficiário de um milagre judicial em tutor moral da Nação.

E aqui entra a lembrança incômoda trazida por Guilherme Grandi, da Gazeta do Povo: Paulinho só está onde está porque o Supremo, em uma decisão conveniente, apagou uma condenação que o manteria longe da vida pública. A absolvição abriu caminho para que ele retornasse à Câmara e, vejam só, fosse escolhido para relatar a anistia. É como se o árbitro expulso por manipulação de resultados voltasse ao estádio como presidente da federação. O que esperar além de novo escândalo?

No fim das contas, o discurso de Paulinho da Força não é sobre pacificação. É sobre sobrevivência política. É sobre transformar a pauta da anistia em palco para recuperar relevância, blindar aliados e mostrar ao establishment que ainda pode ser útil. A imprensa tradicional, desesperada por uma narrativa que enfraqueça a oposição e mantenha a aura de “democracia em perigo”, abraça esse teatro com entusiasmo. E o povo, mais uma vez, é tratado como plateia cativa, obrigado a aplaudir a peça mesmo quando a farsa já é evidente.

Resta saber se os brasileiros continuarão aceitando que o relator de um projeto tão sensível seja um político que já foi condenado por corrupção e absolvido em manobra judicial, ou se finalmente perceberão que a verdadeira pacificação não virá de arranjos de bastidores, mas de justiça real e transparência. Porque, convenhamos, esperar que Paulinho da Força seja o símbolo da moralidade política é como acreditar que “O Globo” ainda faz jornalismo imparcial.

Com informações O Globo/Gazeta do Povo

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