
Desde o início de seu terceiro mandato, Luiz Inácio Lula da Silva tratou Roberto Campos Neto como o grande vilão da economia. O ex-presidente do Banco Central tornou-se o “malvadão” oficial nas narrativas do Palácio do Planalto e da militância petista. Se os juros estavam altos, a culpa era dele. Se o PIB não crescia como Lula desejava, a culpa também era dele. Tudo era jogado sobre seus ombros como se o Copom fosse um órgão de uma pessoa só e não um colegiado com nove votos técnicos. Pouco importava que, sob sua gestão, a taxa Selic tivesse caído de 13,75% para 12,25% ao ano, com crescimento econômico acima do esperado: 3,2% em 2023 e 3,4% em 2024. Campos Neto foi transformado pelo discurso petista no grande inimigo a ser abatido, uma espécie de obstáculo moral à “nova prosperidade” prometida por Lula.
O curioso é que a mesma política monetária, apontada como perversa quando defendida por Campos Neto, foi preservada e até ampliada com Gabriel Galípolo à frente do Banco Central. Mas agora o silêncio reina. Nada de ataques raivosos, nada de discursos inflamados, nada de culpar o novo presidente da autoridade monetária pelos juros ainda mais altos. Como destacou Alan Ghani em artigo publicado na Gazeta do Povo em 26 de setembro, é no mínimo intrigante perceber como o malvadão da vez deixou de ser o Banco Central e voltou a ser a realidade econômica que o governo insiste em não enfrentar.
Durante dois anos, Lula acusou Campos Neto de travar o crescimento com sua suposta insensibilidade. Ignorava, convenientemente, que os juros eram instrumento indispensável para conter a inflação alimentada por gastos descontrolados e pressões externas. O resultado foi um crescimento consistente, acima das projeções, sem explosão inflacionária. Ainda assim, o petismo precisava de um culpado. E Campos Neto foi eleito como o símbolo perfeito: indicado por Jair Bolsonaro, técnico e resistente às pressões políticas, encaixava como antagonista ideal no enredo de um governo que buscava sempre terceirizar responsabilidades.
Quando Campos Neto deixou o cargo e Galípolo assumiu, muitos esperavam a virada. Dentro do governo, a crença era de que finalmente o Banco Central cederia às vontades do Planalto e cortaria juros para aquecer artificialmente a economia, pouco importando os riscos. A ilusão durou pouco. Desde a posse de Galípolo, a Selic não apenas não caiu, como subiu de 12,25% para 15% ao ano, surpreendendo o mercado e enterrando de vez o mito de que bastava trocar o comando para domesticar a política monetária. O malvadão da narrativa havia saído de cena, mas os juros se mostraram ainda mais severos.
A ironia é evidente. Enquanto Campos Neto era atacado dia sim e outro também por Lula, Galípolo é poupado de qualquer crítica, mesmo sendo o responsável por uma Selic mais dura. O Banco Central, sob sua direção, não apenas elevou os juros como manteve críticas duríssimas à política fiscal do governo. Na ata mais recente, o Copom deixou claro que o descontrole de gastos públicos e a ausência de reformas estruturais ampliam o prêmio de risco da dívida, pressionam a inflação e obrigam a manutenção da Selic em patamar elevado. Foi um recado direto: os juros altos são consequência das escolhas fiscais de Lula, não de uma conspiração do Banco Central.
Mas diante disso, onde está a indignação presidencial? Onde estão as coletivas recheadas de ataques? Onde está o dedo em riste contra o presidente do BC? O silêncio de Lula diante de Galípolo é ensurdecedor. O mesmo governo que pintava Campos Neto como o malvadão responsável por travar o crescimento agora prefere fingir que nada acontece. O discurso mudou não porque a realidade econômica tenha mudado, mas porque o personagem central já não é mais útil à narrativa.
O contraste é gritante. Campos Neto, o malvadão de Lula, saiu de cena deixando a economia crescendo acima do previsto e a inflação sob controle. Galípolo, protegido pelo silêncio conveniente, comanda uma Selic ainda mais alta e um PIB em desaceleração, com projeções de apenas 2% para 2025. O que mudou não foram os fundamentos, mas sim a conveniência política. O governo da extrema-esquerda perdeu seu inimigo imaginário e agora se esconde do próprio fracasso. No fim, o silêncio de Lula diz muito mais do que seus ataques de outrora.
Com informações Gazeta do Povo
















