
Quando se fala em “combater a desinformação”, o que está realmente sendo proposto? Para muitos dos que hoje se autodenominam “verificadores de fatos”, esse combate está menos relacionado à verdade factual e mais ligado a uma cruzada ideológica contra pensamentos que destoam de uma agenda bem específica. O evento GlobalFact, realizado no Rio de Janeiro, promovido pela International Fact-Checking Network (IFCN), serviu de palanque internacional para consolidar essa narrativa – a de que “a verdade” deve ser monopolizada por uma elite jornalística comprometida, não necessariamente com os fatos, mas com uma determinada visão de mundo.
Durante o evento, Angie Drobnic Holan, diretora do IFCN, reafirmou com tranquilidade que as big techs devem ser corresponsáveis pela disseminação de conteúdo dito “falso”. A expressão pode parecer inocente à primeira vista, mas esconde um problema grave: quem decide o que é falso? E mais importante, com base em que critérios e com qual autoridade? O movimento atual, liderado por agências que se colocam como juízes da informação, ignora deliberadamente que a verdade, no mundo político e social, é frequentemente disputada – não determinada.
Holan afirma que as pessoas “querem acesso a informações precisas”, o que ninguém em sã consciência contestaria. Mas também afirma que os checadores de fatos “possuem princípios éticos”, como se o simples autodeclarar-se ético fosse suficiente para garantir neutralidade. Seria cômico se não fosse trágico. Ora, parte dos próprios jornalistas e agências envolvidas nesse trabalho têm posicionamentos públicos e históricos alinhados com determinadas correntes políticas, quase sempre de viés progressista. Como, então, podem ser árbitros confiáveis em uma arena repleta de interesses conflitantes?
A senhora Holan acredita que as big techs devem promover “informações de alta qualidade”. Aparentemente, isso significaria o banimento ou ocultamento de tudo aquilo que fuja da ortodoxia politicamente correta das redações. E se isso soa como censura velada, é porque é exatamente isso. A diferença entre “moderação de conteúdo” e “controle ideológico” está apenas na retórica usada para justificá-lo. O jornalista independente, o comentarista conservador, o analista que questiona a narrativa oficial – todos correm o risco de serem rotulados como disseminadores de “fake news”.
Há, no discurso do evento, uma curiosa contradição: por um lado, celebra-se a liberdade de ideias; por outro, condena-se duramente tudo que não se encaixa em seus filtros de veracidade. É um liberalismo seletivo. A preocupação com o uso da inteligência artificial também soa hipócrita, já que muitos dos mesmos grupos que hoje se dizem alarmados com a IA a utilizam para ranquear conteúdos, limitar alcance e até manipular algoritmos que moldam o debate público. Trata-se, portanto, de um jogo de cartas marcadas.
O mais inquietante, no entanto, foi a menção elogiosa à participação dos ministros Alexandre de Moraes e Cármen Lúcia, como se figuras do Judiciário pudessem ser celebradas em um evento internacional de jornalismo sem comprometer qualquer aparência de imparcialidade. É sabido que o ministro Moraes lidera no Brasil uma ofensiva sem precedentes contra a liberdade de expressão, com medidas que incluem a remoção de perfis, a investigação de jornalistas e o silenciamento de vozes dissidentes, tudo sob a justificativa de combater a “desinformação”. No mínimo, um paradoxo: juízes discutindo liberdade de expressão enquanto impõem restrições judiciais a quem ousa falar fora da cartilha.
Ao falar sobre guerra e conflitos internacionais, Holan admite que muitos fatos não podem ser verificados imediatamente. Pois bem, essa limitação deveria ser suficiente para desacelerar julgamentos precipitados – mas não é o que se vê. Em boa parte dos conflitos, como entre Rússia e Ucrânia, ou nos embates envolvendo Israel, os veículos de checagem costumam tomar partido desde o primeiro minuto, reproduzindo discursos alinhados com a versão ocidental/globalista dos fatos. A prudência investigativa, tão exaltada no discurso, desaparece quando o objetivo é reforçar uma determinada visão de mundo.
A insistência em afirmar que “fake news” são alimentadas por agentes da “extrema-direita” também revela o viés ideológico da abordagem. Nenhuma palavra sobre as mentiras veiculadas por governos de esquerda, por ONGs internacionais ou por agências que erram – e muito – em suas análises e prognósticos. A verdade, aparentemente, não mora no equilíbrio, mas na conveniência.
No fim das contas, o GlobalFact revelou-se mais uma engrenagem da grande máquina de engenharia social que tenta moldar o que você pode ou não pensar, compartilhar e debater. Os “verificadores de fatos” já não são mais simples jornalistas, mas autênticos fiscais do pensamento, legitimados por instituições supranacionais, ONGs bilionárias e governos ansiosos por controlar o discurso público.
A verdade continua sendo uma busca individual, não uma concessão institucional. O cidadão comum, quando munido de informação e senso crítico, é perfeitamente capaz de discernir o real do falso. O que falta, na maioria das vezes, é acesso plural a diferentes perspectivas. E é exatamente isso que a nova censura quer evitar: que você pense por si mesmo.
Ao final da leitura da reportagem de Rafael Cardoso, o que salta aos olhos não é a preocupação com a verdade, mas a clara tentativa de construir uma versão única da realidade, polida e aprovada por uma elite jornalística internacional. O jornalista apresenta os fatos com profissionalismo, mas o contexto geral do evento e suas entrelinhas deixam claro que o esforço ali é menos informativo e mais programático: ditar o que pode ou não ser dito.
E como todo bom conservador sabe, liberdade de expressão não se negocia. É pilar da civilização ocidental, não concessão de tecnocratas ou ministros. A sociedade não precisa de curadores da verdade, mas de cidadãos livres e conscientes. A desinformação existe, sim – e ela prospera justamente quando se tenta calar a diversidade de vozes em nome de uma “verdade oficial”.
Com informações Agência Brasil
















