Argentina prova que derrotar o populismo é mais difícil do que parece

A Argentina, esse país que já foi símbolo de prosperidade no início do século XX, volta a ser o retrato vivo

Por Notas & Informações

A Argentina, esse país que já foi símbolo de prosperidade no início do século XX, volta a ser o retrato vivo de como o populismo destrói civilizações inteiras. Não é exagero afirmar que, de tanto se embriagar com as promessas fáceis do peronismo, o povo argentino transformou um dos maiores potenciais da América Latina em um território de ilusões frustradas e vícios econômicos incuráveis. O jornalista e economista JH Fonseca, em conjunto com análises também trazidas por Claudio Dantas, toca num ponto crucial: exorcizar o populismo não é apenas difícil, é quase impossível quando a dependência coletiva se torna um vício mais forte que a razão. Milei surge como a figura disruptiva que tenta salvar o paciente terminal, mas, como em toda cirurgia de choque, há dor, cortes profundos e resistência ferrenha de quem prefere a anestesia do assistencialismo à cura definitiva.

Não há como ignorar os números que, em qualquer outra nação, seriam motivo de festa: economia crescendo mais de 5% em 2025, inflação em queda livre, salários em recuperação, pobreza declinando e ativos valorizados. A fotografia macroeconômica é invejável para padrões latino-americanos. O mundo observa e aplaude, como fizeram Financial Times e The Economist, ao notar que, finalmente, a Argentina havia colocado o pé no rumo certo. Mas a política, essa velha inimiga das reformas estruturais, mostrou suas garras: nas urnas da província de Buenos Aires, Milei foi esmagado por 14 pontos percentuais de diferença, quando se esperava uma derrota moderada. O recado foi claro: não basta arrumar a casa, é preciso lidar com o inquilino que se recusa a deixar de lado os privilégios que o Estado, por décadas, distribuiu como moeda de troca política.

Claudio Dantas já apontava que, na Argentina, o populismo não é apenas ideologia, é uma cultura impregnada na elite e no povo. Quando Milei cortou programas como Bolsas Progresar e Potenciar Trabajo, mexeu em alicerces que sustentam a lógica viciada de gerações. Não foi apenas um ajuste fiscal, foi um golpe direto na dependência coletiva. A classe média urbana, acostumada a subsídios de energia que mascaravam sua real capacidade de consumo, reagiu como qualquer viciado privado da sua dose: com raiva, medo e ressentimento. E a elite industrial, protegida durante décadas por subsídios que garantiam lucro mesmo na ineficiência, não perdoou a retirada da teta estatal. Milei ousou desarmar o cassino argentino e, como todo reformador radical, viu as fichas serem jogadas contra ele.

O paralelo com o Brasil é inevitável. Imaginar um presidente conservador derrotado em Minas Gerais por 14 pontos de diferença gera a mesma sensação de inviabilidade política que hoje paira sobre Milei. A mensagem das urnas foi assimilada imediatamente pelos mercados: tombo nas bolsas, disparada do dólar e risco país acima de mil pontos. Não porque os fundamentos econômicos tenham desaparecido, mas porque a viabilidade política da agenda de reformas foi colocada em xeque. O investidor sabe que números não sobrevivem sem estabilidade política. O eleitor, por sua vez, ignora os gráficos e prefere a narrativa que o conforta.

O drama argentino não é de hoje. Fonseca lembra bem: um país que já esteve no topo do PIB per capita global se tornou refém da irresponsabilidade fiscal, do clientelismo e da incapacidade de cortar privilégios. O vício no populismo é como qualquer vício químico: dá prazer imediato, mas cobra um preço devastador no longo prazo. Sete décadas de peronismo corroeram a alma argentina. Macri tentou o gradualismo, fracassou. Milei arriscou o choque, e agora enfrenta o risco de fracassar não pela incompetência técnica, mas pela falta de maturidade política do eleitorado. É cruel, mas verdadeiro: os povos também colhem o que plantam.

A crítica de JH Fonseca expõe a contradição essencial: como salvar um paciente que prefere a doença ao tratamento? O argentino médio, capturado por décadas de ilusões, vota contra quem lhe tira os paliativos, mesmo que o preço seja prolongar a dor crônica da estagnação. O peronismo é essa droga que mantém viva a esperança de curto prazo, enquanto rouba silenciosamente o futuro. Milei ousou oferecer a abstinência, mas descobriu que muitos ainda preferem o delírio da dependência.

A contundência de Claudio Dantas em seus comentários também se soma à constatação: o populismo, uma vez instalado, não é apenas política, é cultura. E culturas não se mudam com decretos ou estatísticas. Mudam com tempo, dor e resiliência. O problema é que a democracia, com sua dinâmica de ciclos eleitorais, raramente concede tempo suficiente para que o remédio amargo faça efeito. Milei sabe disso, os mercados sabem disso, e o eleitor, ao rejeitar o caminho mais duro, confirma que prefere mais uma recaída.

O que resta é a reflexão dura e necessária: se Milei falhar, que alternativa restará? Mais gradualismo? Mais doses de subsídios que apenas prolongam a agonia? Ou a rendição definitiva ao peronismo eterno, esse câncer que já não destrói apenas a economia, mas o espírito de uma nação inteira? A Argentina está diante de sua encruzilhada histórica, e o desfecho dirá muito mais do que sobre um país vizinho. Dirá sobre a capacidade ou incapacidade da América Latina de se livrar do espectro do populismo que a condena à eterna mediocridade.

Enquanto isso, Milei se mantém como a figura incômoda, disruptiva, odiada por uns e reverenciada por outros, mas que teve a coragem de dizer em voz alta o que tantos evitavam: o problema não é econômico, é moral. O problema não está nas fórmulas técnicas, mas na covardia de uma sociedade que se recusa a crescer. Talvez, por isso mesmo, sua luta tenha valor histórico, mesmo que o desfecho seja amargo.

Com informações FH Fonseca/Claudio Dantas

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