
Certamente o texto da jornalista Caroline Nunes, publicado no Extra, levanta um tema que há décadas é manipulado politicamente, mas nunca efetivamente resolvido: a situação das trabalhadoras domésticas no Brasil. O estudo citado pelo Ministério do Desenvolvimento Social mostra um cenário preocupante de informalidade, baixa remuneração e exaustão física e emocional. Porém, como de costume, o diagnóstico apresentado pela máquina estatal parece muito mais voltado a alimentar um discurso ideológico do que propor soluções reais e responsáveis.
A história de Dijane Clemente, uma mulher de 58 anos que enfrenta o sacrifício diário de pegar seis conduções para garantir o sustento da casa, é apenas mais um exemplo de como a classe trabalhadora brasileira é usada como massa de manobra política. Mesmo com carteira assinada, Dijane é obrigada a fazer diárias extras, já que o salário mínimo que recebe não cobre o básico, como aluguel e alimentação. A reportagem reforça o dado alarmante: 64,5% das trabalhadoras domésticas ganham menos que um salário mínimo, e a grande maioria sequer tem acesso aos direitos mais simples de um trabalhador formal.
A jornalista Caroline Nunes destaca que sete em cada dez trabalhadoras domésticas se sentem cronicamente cansadas, muitas vezes enfrentando jornadas de até 14 horas em mais de um emprego. E aqui vale uma pausa para refletir: como o governo, que tanto gosta de criar ministérios e secretarias para “cuidar da população”, permite que essa situação se arraste por décadas sem solução? O que se vê são estatísticas sendo usadas para alimentar discursos emocionais, enquanto a realidade de quem acorda às 4 da manhã para enfrentar a condução continua exatamente a mesma.
Não surpreende que mais de 90% das trabalhadoras domésticas sejam mulheres, com uma expressiva maioria de negras (66%), segundo os dados levantados. A própria secretária nacional de Cuidados e Família, Laís Wendel Abramo, ligada ao Ministério do Desenvolvimento Social, tenta encaixar essa realidade dentro de um discurso histórico que remonta à escravidão. É o velho truque da esquerda: transformar um problema social e econômico em uma bandeira ideológica para culpar o passado e se isentar da responsabilidade presente.
Vale lembrar que há uma década foi criada a chamada Lei das Domésticas, que deveria ter sido um marco de transformação. O próprio presidente do Instituto Doméstica Legal, Mario Avelino, reconhece que a lei trouxe avanços, como o aumento de trabalhadoras com carteira assinada. No entanto, ele também deixa claro que a informalidade permanece altíssima, e que a fiscalização do governo é quase inexistente. O que deveria ser um passo para a dignidade virou mais um exemplo da ineficiência estatal.
É fundamental destacar que muitas dessas mulheres, como Gilmara Gomes, que trabalha desde os 16 anos, não têm sequer o direito ao descanso semanal. Ela precisa fazer diárias até aos domingos, enfrentando longos deslocamentos, falta de transporte e o medo constante de adoecer sem ter sequer um plano de saúde. Seu relato é um retrato fiel de um país que vive de retórica social, mas entrega miséria e abandono.
O mais preocupante é que, ao invés de criar condições reais para fomentar a formalização, gerar renda sustentável e estimular o crescimento econômico, o governo segue aplicando a velha fórmula de sempre: estatísticas dramáticas, diagnósticos alarmistas e nenhuma ação estrutural. Enquanto o Estado se expande, criando cada vez mais cargos públicos e estruturas burocráticas, a população que realmente carrega o Brasil nas costas segue na mesma situação de precariedade, informalidade e desvalorização.
Não se trata de negar os problemas históricos. Mas é preciso reconhecer que o que mantém a trabalhadora doméstica na informalidade e na pobreza não é a falta de discursos progressistas. É a ausência de políticas públicas eficientes, baixa geração de empregos formais, alta carga tributária sobre pequenas famílias empregadoras e legislações trabalhistas que desestimulam a contratação formal.
No final da reportagem, a própria Dijane resume com simplicidade aquilo que governos, ONGs e sindicatos fingem não ouvir: “A gente cuida, mas não tem quem cuide da gente”. E ela está certa. Porque, enquanto a esquerda usa o sofrimento dessas mulheres como argumento político, quem realmente paga o preço dessa inoperância estatal são elas mesmas: as trabalhadoras domésticas do Brasil, que vivem na ponta mais esquecida da pirâmide social, esperando por uma solução que nunca vem.
Com informações Extra
















