Banco Central projeta inflação próxima da meta apenas no final de 2027 e alerta para riscos

A política monetária do Brasil, como qualquer engenharia sensível do Estado moderno, sempre se equilibrou entre a esperança estatística e o

Por Notas & Informações

A política monetária do Brasil, como qualquer engenharia sensível do Estado moderno, sempre se equilibrou entre a esperança estatística e o desastre inflacionário. No entanto, quando o Banco Central projeta que a inflação se alinhará à meta apenas no longínquo final de 2027, estamos diante de algo mais profundo do que números técnicos: estamos diante do reflexo de uma nação que perdeu o senso de urgência e responsabilidade sobre os fundamentos que realmente sustentam sua soberania econômica.

A narrativa é simples, mas a mensagem é soterrada por tecnocratas que se orgulham de previsões frias. A inflação, hoje, não é apenas um fenômeno monetário – é um termômetro da desorganização institucional, do gigantismo estatal, e, sobretudo, da desconexão entre Brasília e o Brasil real. Quando se fala em inflação próxima da meta apenas daqui a três anos, o que se confessa, nas entrelinhas, é que o Brasil aceitou um regime de normalidade inflacionária acima do ideal. E quando isso acontece, a classe média paga a conta comendo carne moída enquanto os donos do poder celebram coquetéis sobre colunas de mármore.

A elevação da taxa Selic a impressionantes 15% é tratada como uma medida de prudência, mas, na realidade, é a confissão de um fracasso anterior. Subir os juros agora, depois de tanto tempo de hesitação e interferência política, é como aplicar um torniquete numa artéria já comprometida. E mais: a promessa de uma “pausa muito prolongada” indica que o Banco Central teme algo ainda pior. Teme que, ao tentar ser austero demais, possa despertar os monstros políticos que detestam disciplina fiscal tanto quanto odeiam o livre mercado.

Mas não é apenas isso. O crescimento do PIB previsto para 2025, revisto para 2,1%, soa como música nos ouvidos de quem não entende o que esse número esconde. Sim, o consumo aumentou. Mas por quê? Porque o governo ampliou o crédito consignado para trabalhadores do setor privado. Em outras palavras, estimulou-se a economia empurrando o cidadão para mais dívidas. Isso não é crescimento sustentável, é maquiagem estatística. É comprar um sapato novo com o cartão de crédito estourado e chamar isso de prosperidade.

Não nos enganemos com o tecnicismo das palavras do relatório. Quando os formuladores de política monetária falam em “continuação da política monetária restritiva”, o que estão dizendo, com toda a diplomacia burocrática possível, é que o país não sairá do sufoco tão cedo. A política de juros altos é um remédio amargo, mas necessário. O problema é que o paciente já foi diagnosticado há anos – e o tratamento só começou agora porque, durante muito tempo, Brasília acreditou que poderia driblar as leis do mercado com discursos ideológicos e populismo fiscal.

É importante lembrar: inflação não é apenas um índice. É um fenômeno que corrói a confiança. Nenhuma economia é viável no longo prazo sem previsibilidade. Empresários não investem. Consumidores não compram. Empregadores não contratam. A vida trava. E o pior: a inflação perversa não castiga a elite nem o mercado financeiro – castiga o trabalhador honesto que vê o salário evaporar antes do fim do mês. Essa é a verdadeira injustiça social que a esquerda convenientemente ignora.

Mas há outro fator revelador no relatório: a admissão de que a desaceleração econômica virá no segundo semestre. Isso é o que em Washington ou Frankfurt se chamaria de “choque de realidade”. O crescimento no primeiro trimestre, puxado pelo agronegócio, não se sustentará. Afinal, até mesmo o setor mais produtivo e menos dependente do Estado sofre quando há incerteza tributária, judicialização ambiental e interferência política.

A redução nas previsões inflacionárias para 2025 e 2026, embora bem-vinda, é modesta demais para gerar otimismo genuíno. Cortar 0,2 ponto percentual de uma projeção inflacionária quando se trabalha com uma taxa de juros de 15% é como comemorar um copo d’água no meio do deserto. E, mais uma vez, o relatório reconhece o dilema central: a economia está mais aquecida do que o previsto, o que pressiona a inflação para cima; mas a valorização do câmbio e a queda no preço do petróleo ajudam a segurar esse ímpeto. Ou seja, o equilíbrio é precário e depende mais de fatores externos do que de políticas internas coerentes.

É fundamental entender que o Brasil precisa mais do que medidas paliativas. Precisa de um compromisso político real com a estabilidade. Isso significa reduzir o tamanho do Estado, respeitar o teto de gastos, abrir a economia e parar de tratar o investidor como inimigo de classe. Infelizmente, esse discurso ainda é demonizado por setores que confundem responsabilidade fiscal com crueldade neoliberal.

O mais irônico é que a maior ameaça à estabilidade econômica não é a inflação em si, mas o populismo disfarçado de preocupação social. Enquanto os governantes tratarem o Banco Central como um instrumento político e não como um guardião da moeda, estaremos sempre a um passo de repetir o pesadelo inflacionário dos anos 80. E não se iludam: nenhuma taxa Selic resolverá o problema de um país que escolhe gastar mais do que arrecada para comprar aplausos imediatos com a fatura sendo enviada às futuras gerações.

No fim das contas, a análise do Banco Central é um retrato de contenção, mas não de coragem. O Brasil está tentando equilibrar-se na corda bamba fiscal com uma política monetária severa que tenta compensar as irresponsabilidades do Tesouro. É como tentar tapar o sol com a peneira, mas com linguagem técnica para ninguém perceber.

E, como bem pontuou a jornalista Marcela Ayres, da Reuters, ao relatar que o Banco Central ainda enxerga o alcance da meta de inflação apenas em 2027, fica clara uma constatação desconcertante: estamos sendo preparados para aceitar mediocridade com verniz de planejamento. A verdadeira mudança virá quando o Brasil entender que estabilidade econômica não se alcança com discursos ou relatórios trimestrais, mas com valores – aqueles mesmos que a modernidade tenta enterrar, mas que continuam a ser o alicerce do pensamento conservador liberal: responsabilidade, liberdade econômica e respeito à propriedade. Sem isso, o futuro continuará sendo apenas uma promessa de estabilidade eternamente adiada.

Com informações Reuters

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