
O ministro Luís Roberto Barroso resolveu dar mais uma de suas performances teatrais, dignas de um roteiro da Globo, no encerramento de um julgamento que ele jura ser “histórico”. Foi quase um stand-up jurídico: agradecimentos emocionados, palavras solenes e um discurso que só faltou trilha sonora de piano dramático ao fundo. Só que, convenhamos, se tem algo que já não cola mais é essa narrativa de guardiões da democracia, como se a toga fosse uma capa de super-herói da Marvel e o STF o último bastião contra o “atraso” do Brasil.
Barroso, naquele tom professoral que mistura catequese com autoajuda, fez questão de exaltar o trabalho “hercúleo” de seu colega Alexandre de Moraes. Hercúleo mesmo, convenhamos, porque só Hércules para aguentar a quantidade de malabarismos jurídicos inventados para justificar decisões que sempre, curiosamente, têm como alvo o mesmo lado político. Se fosse para aplaudir, deveria ser pela criatividade em transformar a Constituição em um manual de instruções elástico, moldado conforme a conveniência do momento.
Mas o ápice do espetáculo foi quando Barroso, com ares de estadista em filme de ficção, declarou que este julgamento representava o fim do “ciclo do atraso” no Brasil. O que ele não explicou é que, nesse ciclo, quem ousa pensar diferente é tachado de golpista, extremista, intolerante ou incivilizado. A democracia plural, tão defendida em seu discurso, na prática virou democracia seletiva: plural para quem concorda, censura para quem discorda. Um verdadeiro regime do “pode tudo, desde que seja do jeito que eu quero”.
E como não podia faltar, Barroso recorreu ao velho truque da emoção. Disse que ninguém saiu feliz do julgamento, mas que “é preciso cumprir a missão com coragem e serenidade”. Missão, diga-se de passagem, cuidadosamente roteirizada para mostrar ao mundo uma imagem de imparcialidade e rigor jurídico. O detalhe é que os Estados Unidos, com todas as suas instituições sólidas, não caíram nessa fábula e resolveram aplicar sanções contra autoridades brasileiras justamente pelo que enxergam como arbitrariedades. Foi aí que o choro ensaiado do ministro ficou ainda mais constrangedor.
Porque, convenhamos, não há marketing institucional capaz de disfarçar o vexame internacional. O choro não é pelo Brasil, é pela ferida no ego de uma casta que estava acostumada a ser aplaudida em salões europeus e eventos progressistas mundo afora. Agora, com a credibilidade arranhada, o discurso de “missão patriótica” soa mais como autopreservação de imagem do que defesa da democracia.
O mais irônico é que Barroso falou contra “pensamento único” e “ditaduras”. Justo ele, integrante de um tribunal que nunca perde a oportunidade de reduzir a pluralidade brasileira a um bloco único, controlado, monitorado e punido. É quase engraçado ver a toga virar um espelho torto: fala-se em liberdade, mas se pratica a censura; exalta-se a democracia, mas se sufoca a divergência. Um paradoxo digno de teatro do absurdo.
E não, ministro, não se trata de incompreensão ou de falta de acesso às “provas” que o senhor insiste em citar como se fossem tablets de Moisés. Trata-se de algo bem mais simples: parte significativa da população já não acredita nas narrativas vendidas pelo STF. Não é desinformação, é desconfiança. Não é ignorância, é saturação. O povo olha para o que é dito e para o que é feito e percebe a distância quilométrica entre discurso e realidade.
Enquanto Barroso tenta convencer que está “virando a página do atraso”, o que se vê é a escrita de um novo capítulo de controle político e judicial. E se tem algo que a história ensina, é que todo poder que se embriaga em sua própria importância acaba colhendo o mesmo destino: o descrédito e a rejeição popular. Pode até vir reconhecimento no futuro, como ele aposta, mas dificilmente será o reconhecimento que espera.
No fim das contas, o discurso de Barroso foi mais um ato em um enredo repetido: a tentativa de se vender como o herói que salva a nação dos monstros do golpismo. Só que os brasileiros já perceberam que essa peça não é sobre democracia, mas sobre poder. E poder sustentado em lágrimas artificiais não se mantém por muito tempo.
Talvez seja hora de o ministro entender que a democracia verdadeira não se constrói com discursos melancólicos em tribunais televisionados, nem com aplausos mútuos entre pares togados. Ela se constrói com respeito genuíno à pluralidade, com instituições que não precisam se autopromover como salvadoras, e, acima de tudo, com a humildade de ouvir quem está do outro lado da rua – aquele povo que já não compra mais a farsa das lágrimas oficiais.
















