Congresso torra R$ 760 mil em evento de Gilmar Mendes em Lisboa, Portugal

Por trás dos sorrisos em Lisboa, entre vinhos portugueses e palestras com jargões jurídicos, há uma realidade escancarada: a elite política

Por Notas & Informações

Por trás dos sorrisos em Lisboa, entre vinhos portugueses e palestras com jargões jurídicos, há uma realidade escancarada: a elite política brasileira segue vivendo como se o Brasil fosse uma monarquia absolutista. O escândalo que deveria estar na capa de todos os jornais – mas que, curiosamente, ganha apenas espaço morno na mídia tradicional – foi desnudado pelo jornalista Guilherme Seto, da Folha de S.Paulo: uma caravana de 36 parlamentares para o já batizado “Gilmarpalooza” custou aos cofres públicos mais de R$ 760 mil, dinheiro arrancado sem piedade do lombo do trabalhador brasileiro.

Enquanto o cidadão comum rala para sustentar sua família com um salário mínimo corroído por impostos, juros e inflação, deputados e senadores se esbaldam em Lisboa com passagens que ultrapassam R$ 41 mil e diárias que chegam a R$ 21 mil. Detalhe: do total de viajantes financiados pelo contribuinte, apenas 11 figuraram como palestrantes. Os demais foram como turistas de luxo institucionalizados, sob a carapaça de “missão oficial”.

Não se engane: o Fórum de Lisboa, ou melhor, o festival particular do ministro Gilmar Mendes, é promovido por seu próprio instituto – o IDP – e tem como codiretor seu filho. Sim, caro leitor, estamos diante de um espetáculo de autocelebração promovido por um ministro do Supremo Tribunal Federal com a presença maciça de políticos, juízes, empresários e membros do governo Lula. É como se todo o aparato estatal brasileiro fosse um clube fechado onde poucos, sempre os mesmos, se revezam nos tapetes vermelhos internacionais às custas do povo.

O nome do evento, “Gilmarpalooza”, que já circula entre jornalistas e bastidores políticos, soa como deboche. Não é apenas um apelido espirituoso: é uma síntese da farra institucionalizada, da promiscuidade entre os Três Poderes e da certeza absoluta da impunidade. A elite governante brasileira ri, brinda e posa para fotos em um país estrangeiro, enquanto no Brasil os hospitais carecem de insumos, escolas funcionam em condições precárias e a criminalidade segue sem freios.

O festival contou com a presença de cinco ministros do STF, quatro ministros de Lula, oito governadores, sete ministros do TCU e mais de 50 parlamentares, tudo isso com uma organização que, veja só, “não paga passagens ou hospedagem”, mas cujos custos são reembolsados pelo Congresso, por estatais ou “instituições parceiras”. Na prática, um jogo de empurra onde o povo é o único garantidor final da conta.

Alguns dos “sortudos” da vez foram Luciano Vieira (Republicanos-RJ), com passagens que ultrapassaram os R$ 33 mil, e a senadora Daniella Ribeiro (PP-PB), cujas diárias somaram R$ 21.606, isso apenas em Lisboa. Afinal, como se não bastasse, ela ainda estendeu a viagem ao Marrocos, também bancado com dinheiro público. A justificativa? Participação em seminários e encontros sobre violência contra a mulher e direito. Claro, tudo isso só pode ser debatido no conforto das margens do Tejo, com vinho branco e brinde ao “combate à injustiça social”.

É interessante como eventos supostamente “acadêmicos” e “jurídicos” reúnem, sem exceção, os mesmos protagonistas da política nacional – sempre muito bem hospedados, transportados e alimentados. Não há mais vergonha, não há mais cerimônia. Há apenas um consenso: o Brasil virou um negócio de poucos para poucos.

O mais intrigante é que, mesmo diante dos números escancarados, nada acontece. Não há indignação verdadeira no Congresso, muito menos na cúpula do Judiciário. Há apenas o silêncio cúmplice. E por que haveria barulho? Eles estavam todos lá!

A imprensa, que deveria fiscalizar com rigor, trata o tema com luvas de pelica. A reportagem de Guilherme Seto é uma das poucas exceções que se salvam, mas sem qualquer tom acusatório ou indignado. Não há denúncia formal, não há cobrança real. Apenas a frieza dos números que, sem interpretação crítica, parecem inocentes.

Mas, como qualquer conservador lúcido sabe, números não são neutros. Eles falam – e, neste caso, gritam. R$ 760 mil desperdiçados em nome de um fórum que serve mais para networking político do que para qualquer avanço jurídico. Em tempos de arrocho fiscal, de reforma tributária às pressas e de endividamento recorde, este tipo de “missão” deveria ser considerado escandaloso. Mas não. Foi tratado como mais um capítulo do cotidiano de Brasília.

Enquanto a população é sufocada com impostos, os próprios legisladores usam o erário como cartão corporativo para viagens internacionais. A justificativa? “Dentro da norma da Casa”. Como se isso tornasse o ato moralmente aceitável. Ou será que já perdemos totalmente o senso de vergonha e decência?

Esse é o retrato do Brasil real: um país onde as elites governantes vivem em um universo paralelo, com regalias que fariam corar monarcas do século XVIII. Onde ministros do Supremo organizam eventos que beiram a autopromoção internacional, com o beneplácito e a presença dos próprios colegas de toga. Onde deputados e senadores viajam como popstars, mas não devolvem um centavo sequer aos cofres públicos. Onde o povo – este sim, sempre presente – paga a conta no fim do dia.

A grande pergunta que paira no ar é: até quando? Até quando o brasileiro vai aceitar ser cúmplice involuntário desse circo de ostentação institucional? Até quando a classe política e jurídica se dará ao luxo de desprezar a moralidade em nome do “protocolo oficial”?

O “Gilmarpalooza” não é apenas um evento. É um símbolo. É a encarnação de tudo o que há de errado com o Brasil das cúpulas. É o retrato mais fiel do divórcio entre quem governa e quem é governado. E enquanto não houver indignação verdadeira, este festival de escárnio seguirá sendo anual – com data marcada, convidados certos e passagens em classe executiva pagas pelo povo.

Com informações Folha de S.Paulo

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