“Contas externas têm saldo negativo de US$ 1,3 bilhão em abril”, diz Agência Brasil

O Brasil que se revela nos relatórios técnicos e nos números do Banco Central é muito diferente daquele pintado com tintas

Por Notas & Informações

O Brasil que se revela nos relatórios técnicos e nos números do Banco Central é muito diferente daquele pintado com tintas otimistas pelo governo federal. A notícia publicada por Pedro Peduzzi, da Agência Brasil, no último dia 26 de maio de 2025, traz mais uma amostra de uma economia fragilizada, com contas externas que continuam em terreno negativo, apesar de tentativas de maquiagem estatística e discursos políticos entusiasmados.

Em abril deste ano, as contas externas do país apresentaram déficit de US$ 1,3 bilhão, resultado que, embora inferior ao registrado em abril de 2024 (US$ 1,7 bilhão), ainda revela uma economia que não consegue equilibrar seus compromissos com o resto do mundo. O dado representa as transações correntes — ou seja, a soma de exportações e importações de bens e serviços, além de transferências de renda com outros países. E aqui já cabe um alerta: mesmo quando há pequena melhora percentual, estamos falando de um país que continua sangrando recursos.

A suposta boa notícia da “redução” do déficit precisa ser olhada com lupa. A variação “positiva” de US$ 352 milhões frente ao ano anterior, embora comemorada por alguns, está longe de representar um avanço estrutural. Afinal, trata-se de uma melhora pontual, enquanto o acumulado em 12 meses chega a US$ 68,5 bilhões, o equivalente a 3,22% do PIB. Um rombo que expõe uma vulnerabilidade externa crônica e que tende a pressionar o câmbio, as taxas de juros e, claro, o bolso do cidadão comum.

O mais curioso é que, em abril de 2024, esse mesmo indicador estava em US$ 26,7 bilhões, ou 1,18% do PIB. Em apenas um ano, a deterioração foi vertiginosa, mostrando que o governo do presidente Lula e de seu ministro da Fazenda, Fernando Haddad, não apenas falhou em conter os desequilíbrios externos, como permitiu um agravamento estrutural preocupante. Mas, claro, a culpa será do “Bozo”, da guerra na Ucrânia, ou do clima em Marte.

Ainda que a balança comercial de bens tenha apresentado superávit de US$ 7,4 bilhões em abril — um número aparentemente robusto —, o dado é inferior ao resultado de abril de 2024, quando o superávit foi de US$ 7,8 bilhões. Segundo o Banco Central, as exportações se mantiveram em torno de US$ 30,6 bilhões, mas as importações subiram 1,5%, totalizando US$ 23,2 bilhões. O aumento das importações, embora possa indicar algum grau de retomada na atividade industrial, também pressiona negativamente as contas externas quando não vem acompanhado de maior geração de valor agregado na exportação. E, sejamos francos, o Brasil ainda exporta muito minério e soja — e pouco microchip.

Na conta de serviços, o cenário segue sombrio. O déficit foi de US$ 4,2 bilhões, com destaque para as despesas líquidas de transporte, propriedade intelectual, aluguel de equipamentos e serviços de telecomunicações. Aqui entra um ponto sensível: o Brasil continua dependente de serviços estrangeiros, pagando caro por tecnologia, estrutura e logística. Despesas com propriedade intelectual, por exemplo, somaram US$ 1,1 bilhão — ou seja, seguimos pagando royalties por inovações que não somos capazes de desenvolver internamente, porque a prioridade nacional continua sendo a ideologização das universidades, e não o investimento em pesquisa real.

A renda primária, composta principalmente por lucros e dividendos enviados ao exterior, fechou abril com déficit de US$ 5 bilhões — um recuo de 9,9% frente ao ano anterior. Mas esse tipo de “queda” também deve ser visto com reservas. Menor envio de lucros pode refletir redução dos ganhos dos investidores estrangeiros — o que, por sua vez, é sintoma de desconfiança, retração nos investimentos ou desempenho fraco das empresas. As despesas líquidas com juros, por exemplo, totalizaram US$ 1,7 bilhão, e embora tenha havido uma pequena queda em relação a abril de 2024, os números seguem altos o suficiente para manter o Brasil como um dos países que mais paga pelo privilégio de dever.

Mas eis que surge o dado mais festejado por setores governistas: os Investimentos Diretos no País (IDP), que chegaram a US$ 5,5 bilhões em abril, contra US$ 3,9 bilhões no mesmo mês do ano anterior. Aparentemente, um sinal de confiança dos estrangeiros na economia brasileira. Contudo, quando analisamos a composição desses recursos, vemos que US$ 6,6 bilhões vieram da participação no capital — o que pode significar aquisições ou reinvestimentos — enquanto houve saída líquida de US$ 1,1 bilhão em operações intercompanhia. O que isso quer dizer? Que parte desses recursos pode estar relacionada a reorganizações internas entre multinacionais, e não necessariamente à chegada de novo capital produtivo ao país. Traduzindo: nem todo IDP é motivo de aplauso automático.

Além disso, o IDP acumulado em 12 meses está em US$ 69,8 bilhões, o que representa 3,29% do PIB. Embora pareça um volume expressivo, ele apenas compensa, com alguma dificuldade, os US$ 68,5 bilhões de déficit nas transações correntes. Estamos quase no zero a zero, sem margem para erros futuros.

Já os investimentos em carteira, aqueles mais voláteis e sensíveis ao humor do mercado, somaram ingressos líquidos de US$ 509 milhões em abril. No entanto, houve saída líquida de US$ 1,4 bilhão dos investimentos em ações e fundos de investimento. A única boa notícia nesse campo veio dos títulos de dívida interna, que atraíram US$ 2 bilhões. Mas vale lembrar: esse tipo de investimento vem atraído por juros altos — ou seja, pelo custo Brasil elevado que o governo se recusa a enfrentar.

Outro dado relevante, embora negligenciado por muitos analistas da grande imprensa, é o das reservas internacionais, que atingiram US$ 340,8 bilhões. O número reflete um aumento de US$ 4,6 bilhões em relação a março, graças a variações de paridade cambial e preços internacionais, além das receitas com juros. Mas o uso recorrente dessas reservas como colchão de estabilidade macroeconômica pode se esgotar caso os déficits persistam e o país enfrente um novo choque externo — como, por exemplo, uma mudança no humor do mercado global frente à instabilidade institucional brasileira.

Não se trata de alarmismo, mas de realismo. O Brasil continua gastando mais do que arrecada nas suas relações com o mundo. Exporta commodities, importa valor agregado. Atrai capital especulativo, enquanto assiste à evasão de recursos produtivos. Apresenta números que oscilam pontualmente, mas mantém a mesma trajetória preocupante: déficits recorrentes, baixa competitividade e alta dependência externa.

Enquanto isso, o discurso oficial segue embalado por promessas. Promessas de crescimento, de investimento, de “reindustrialização verde” e de responsabilidade fiscal — que, no fim das contas, esbarram na realidade de um país onde a arrecadação sobe à base de aumento de impostos, onde o Congresso vive sob chantagem institucional e onde empresários são vistos como adversários do progresso.

Não há mágica fiscal que sobreviva à incompetência econômica crônica. E não há crescimento sustentável enquanto o país mantiver déficits dessa magnitude, ainda que pontualmente amenizados por variações cambiais ou ajustes contábeis. O Brasil de 2025 precisa urgentemente de um projeto econômico realista, que incentive o setor produtivo, reduza a carga tributária, combata a burocracia e retome a confiança dos investidores — os de verdade, e não os que vêm atrás de juros estratosféricos.

A reportagem de Pedro Peduzzi, da Agência Brasil, publicada em 26 de maio de 2025, é um retrato fiel do momento em que vivemos: uma fotografia honesta, ainda que técnica, do abismo que separa a propaganda oficial da realidade econômica. E se não quisermos repetir os erros do passado recente, é bom que estejamos atentos. Porque da próxima vez, o tombo pode ser ainda maior.

Com informações Agência Brasil

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