
No Brasil, o colapso fiscal deixa de ser uma hipótese longínqua e assume a forma de uma realidade cada vez mais concreta, visível no cotidiano de milhões de cidadãos. As manchetes deixam claro: as engrenagens da máquina pública estão emperrando. Em vez de discutir reformas estruturais, o governo prefere tapar buracos com soluções imediatistas, muitas vezes populistas, e com isso empurra o país a passos largos rumo à estagnação do serviço público, da economia e, sobretudo, da confiança institucional.
A reportagem de O Globo, assinada por Bernardo Lima, Bruna Lessa, Geralda Doca, Thaís Barcellos e Letícia Lopes, oferece um retrato fidedigno e alarmante do que acontece quando se escolhe o inchaço estatal em detrimento da eficiência. Agências reguladoras paralisadas, universidades à beira do colapso estrutural, o INSS atolado em filas infinitas, e até a segurança aeronáutica nacional ameaçada por cortes orçamentários que atingem inspeções, licenças e medidas preventivas.
Nada disso é inesperado. Há anos, os conservadores alertam sobre a insustentabilidade de um Estado que gasta muito mal e promete mais do que pode cumprir. Mais de 90% do orçamento federal é composto por despesas obrigatórias: salários, previdência, vinculações constitucionais que tolhem a capacidade do Estado de investir, planejar e reagir. O restante — a chamada “gordura” que ainda sustentava a estrutura mínima de operação de órgãos vitais — está evaporando.
A Anac, por exemplo, admite com todas as letras que há risco de acidentes aeronáuticos. O Brasil, que já foi referência em aviação civil na América Latina, agora passa a ser visto com desconfiança por autoridades internacionais. A Aneel, por sua vez, já cortou mais de 140 funcionários terceirizados, o que coloca em risco a fiscalização do setor elétrico — este mesmo que já sofre com quedas de energia e oscilações constantes, como ficou claro no relato da aposentada Elisa, que precisou recorrer à Justiça para resolver um problema causado pela negligência da concessionária e agravado pela omissão do Estado.
É preciso dizer com todas as letras: não se trata de falta de dinheiro, mas de má gestão crônica, centralização ideológica e apego irracional ao Estado como único provedor da sociedade. Enquanto isso, as agências reguladoras — verdadeiros pilares técnicos de regulação, controle e equilíbrio de mercados sensíveis — são sucateadas por escolhas políticas desastrosas. A Anatel, por exemplo, teve que suspender iniciativas essenciais de combate à pirataria e desinformação. A ANM opera “no limite” e corre risco de parar por completo a fiscalização de barragens — um perigo real para cidades inteiras que vivem sob essas estruturas.
A elite política em Brasília, em sua cegueira ideológica, insiste em garantir votos por meio de benesses assistencialistas, como o aumento desenfreado do BPC, que deverá alcançar 6,7% da população até 2060. Uma bomba-relógio. O impacto dessa escolha se dá justamente nos setores que garantem o funcionamento mínimo da sociedade: água, luz, energia, segurança, transportes e previdência.
O que fazer? Essa pergunta nos é lançada diariamente por quem ainda acredita que o país pode escapar do abismo. A resposta é tão simples quanto ignorada pelos engenheiros do caos: é preciso reduzir o tamanho do Estado, cortar privilégios, eliminar cabides de emprego e desburocratizar a administração pública. E mais: devolver ao cidadão o poder de escolha, incentivando a concorrência, a iniciativa privada e a responsabilização dos gestores.
Quando o INSS acumula 2,6 milhões de pedidos parados, não é apenas um número. São vidas. São pessoas que trabalharam décadas esperando uma aposentadoria digna e agora veem seus direitos afogados em pilhas de processos por falta de funcionários e estrutura. É o reflexo de um sistema que prefere gastar bilhões com marketing político, em vez de garantir o mínimo para quem realmente precisa.
A UFRJ, maior universidade federal do país, ficou sem luz e sem água. Um trecho de muro caiu. Parece cena de filme pós-apocalíptico, mas é apenas o retrato fiel de uma instituição engessada, dominada por um corporativismo sindical que resiste a qualquer proposta de modernização. E quando a universidade depende de “repasse emergencial” do Ministério da Educação para pagar contas básicas, o que se escancara é a falência de um modelo que idolatra o público, demoniza o privado e sufoca a liberdade de gestão.
Os exemplos não param. A ANA, responsável pelo monitoramento das águas brasileiras, reduziu as fiscalizações em açudes do Nordeste justamente no início do período de seca. Que ironia cruel! Enquanto as ONGs ambientalistas discursam em conferências milionárias pelo mundo, as ações concretas de prevenção no semiárido brasileiro são abandonadas por um governo que prefere narrativa a resultado.
Por trás de toda essa tragédia silenciosa, existe uma escolha política clara: governar com base em populismo fiscal, ignorando o impacto no longo prazo. A falácia do “Estado salvador” está sendo desmascarada diante de nossos olhos, e os sinais do colapso não podem mais ser varridos para debaixo do tapete.
Ao final, a constatação é dura, mas necessária: o Brasil está se tornando ingovernável não por falta de recursos, mas por excesso de promessas e ausência de coragem para reformar. E os que mais sofrem são justamente os que menos têm.
Que fique registrada, portanto, uma reflexão altamente peculiar, mas essencialmente conservadora:
Se a reportagem de Bernardo Lima, Bruna Lessa, Geralda Doca, Thaís Barcellos e Letícia Lopes, de O Globo, pretendia apenas alertar sobre os efeitos dos cortes orçamentários, então ela cumpriu bem sua missão. Mas o que fica evidente nas entrelinhas é algo ainda mais grave — um sistema estatal insaciável, que consome tudo ao redor e ainda assim exige mais. Um Leviatã travestido de servidor público. E quando até os parafusos dessa engrenagem começam a cair, talvez finalmente se compreenda que a verdadeira solução não está em mais Estado, mas em mais liberdade, mais responsabilidade individual e mais verdade.
Com informações O Globo
















