Dino vota pela condenação, com penas mais duras para Bolsonaro e Braga Netto

O Estadão descobriu, mais uma vez, que manchetes podem ser mais teatrais do que peças de Shakespeare. A cada parágrafo, a

Por Notas & Informações

O Estadão descobriu, mais uma vez, que manchetes podem ser mais teatrais do que peças de Shakespeare. A cada parágrafo, a sensação é de que não se trata de jornalismo, mas sim de um roteiro mal escrito para uma novela de quinta categoria transmitida em horário político gratuito. O julgamento no Supremo, que em teoria deveria ser tratado como fato jurídico, ganha contornos de épico de ficção, com vilões caricatos, heróis iluminados e, claro, a sempre conveniente palavra mágica: “golpe”. Não importa quantas vezes a repetição esvazie o sentido, o termo continua sendo recitado como mantra, porque se há uma coisa que a imprensa militante não suporta é a ideia de um Brasil que pense por conta própria.

A reportagem assinada pelo Estadão cumpre o papel de sempre: repetir com solenidade os discursos de ministros do Supremo como se fossem escrituras sagradas, ignorando o detalhe incômodo de que juízes não foram eleitos, não receberam um único voto e, no entanto, decidem os rumos políticos da nação como se fossem donos do tabuleiro. Flávio Dino, agora travestido de “guardião técnico”, surge como o novo sacerdote da toga, aquele que, segundo a velha imprensa, fala acima das paixões e paira sobre a plebe ignorante. A mesma plebe que, nas ruas, insiste em discordar da narrativa cuidadosamente embalada.

É fascinante observar como o Estadão se esforça para vender a ideia de que este julgamento é “como outro qualquer”. A neutralidade é tão convincente quanto um discurso de campanha de um vereador em época de eleição. O tribunal, blindado por capas pretas e discursos de imparcialidade, age como se não estivesse sob o holofote internacional, como se pressões políticas não existissem e como se o alinhamento automático entre ministros não fosse tão previsível quanto o resultado de um campeonato manipulado. Mas o leitor não deve se enganar: estamos diante de um teatro cuidadosamente roteirizado, no qual cada voto é ensaiado e cada palavra escolhida para reforçar a narrativa que precisa ser vendida.

O enredo é sempre o mesmo: o ex-presidente Jair Bolsonaro ocupa o papel de antagonista supremo, cercado por ex-ministros transformados em cúmplices de um “plano golpista” que até hoje ninguém conseguiu explicar com mínima lógica. Se havia um golpe em andamento, qual seria o exército? Quem assumiria o poder? Qual a estratégia? Silêncio. A imprensa prefere a caricatura: basta repetir que houve uma conspiração e, como mágica, o mito se torna realidade. Não há esforço para desmontar contradições; afinal, para que jornalismo investigativo quando se tem narrativa pronta?

O texto publicado pelo Estadão ainda encontra espaço para o recurso dramático da “prova acima de qualquer dúvida razoável”. Expressão de efeito, mas que, na prática, significa apenas que o tribunal decidiu acreditar em suas próprias convicções, independentemente daquilo que se chama, em democracias funcionais, de contraditório. Mas para o jornalismo de manual militante, aplaudir de pé ministros que atuam como acusadores e juízes ao mesmo tempo virou sinônimo de coragem institucional. Que conveniente.

E há o detalhe saboroso: Dino cita analogias futebolísticas, comparando o STF a árbitros que marcam pênaltis de acordo com as regras. Nada mais oportuno em um país onde até os campeonatos de várzea já foram acusados de manipulação. A metáfora cai como uma luva: quem assiste sabe que o jogo está previamente decidido, mas o árbitro insiste em posar de imparcial. E o Estadão, como bom narrador oficial da partida, descreve cada lance como se fosse uma surpresa inesperada.

O jornal, evidentemente, não poderia deixar de recorrer à ladainha da “anistia impossível”. É preciso bater na tecla da impunidade, ignorando que a própria história brasileira é recheada de anistias concedidas em contextos muito mais graves. Mas, claro, desta vez é diferente. Sempre é diferente quando o alvo não pertence ao clube progressista. O que para uns foi “reconciliação nacional”, para outros deve ser “prisão exemplar”. A coerência seletiva é a marca registrada dessa imprensa que se autoproclama fiscal da democracia.

E como não rir do drama internacional inventado? O texto menciona supostas pressões vindas do governo Trump, sanções e cancelamento de vistos. É quase um roteiro de filme de espionagem: toga contra Casa Branca, ministros perseguidos por potências estrangeiras. O detalhe é que ninguém fora da bolha leva a sério esse tipo de invenção, mas serve bem ao objetivo de inflar a narrativa do STF como vítima heroica. O Estadão agradece a oportunidade, porque nada dá mais cliques do que transformar burocratas em mártires.

No fim das contas, o que se lê é menos jornalismo e mais peça de propaganda. O tom de imparcialidade é apenas um verniz mal pintado sobre a militância travestida de análise. Para o leitor atento, fica claro: a velha imprensa não noticia, ela milita. Não informa, catequiza. E quando se trata de Bolsonaro, não há espaço para dúvida, apenas para condenação prévia. O julgamento ainda não terminou, mas o veredito já foi escrito nas redações.

O Estadão, ao cumprir seu papel de porta-voz oficioso do Supremo, tenta impor a ideia de que estamos diante de um momento histórico, decisivo para a democracia. Mas, ironicamente, quanto mais repete o discurso oficial, mais expõe sua irrelevância. O jornal que um dia já foi referência de sobriedade agora se limita a ecoar o que a plateia progressista deseja ouvir. E assim segue, transformando manchetes em peças publicitárias e reportagens em sermões ideológicos.

O resultado? Um texto que não convence nem os convertidos. Porque, no fundo, todo mundo sabe: se fosse mesmo um julgamento “como outro qualquer”, não precisaria de tanto teatro, tanta narrativa e tanto esforço para vender uma história que desmorona ao primeiro sopro de ceticismo.

Com informações Estadão

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