
Em Brasília, onde a realidade já não precisa disputar espaço com a ficção porque ambas se misturam em perfeito cinismo, o ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino resolveu dar o ar da sua graça. Sim, aquele mesmo ex-ministro da Justiça de Lula, que até ontem militava na seara comunista com a desenvoltura de quem acredita que Constituição é um pedaço de papel a ser dobrado conforme a conveniência política. Agora, devidamente paramentado com a toga, Dino finge encarnar a seriedade institucional enquanto prepara o terreno para que o STF julgue as famigeradas emendas parlamentares. O timing, claro, não poderia ser mais oportuno: justo quando o Congresso avança na chamada PEC da Blindagem, que, para desespero da esquerda radical e seus porta-vozes na imprensa militante, busca limitar os poderes quase divinos da Corte sobre os representantes eleitos pelo povo.
O espetáculo segue o mesmo roteiro previsível. Dino não enviou os processos para deliberação, mas já faz pose de maestro regendo a orquestra. Espera com paciência estratégica as manifestações da AGU e da PGR, como quem serve um café morno em reunião interminável, até que chegue o momento certo de liberar o banquete jurídico no plenário do STF. E o assunto, claro, não é qualquer um: trata-se das emendas Pix e das emendas impositivas, mecanismo que movimenta bilhões e que, veja só, fortalece o poder do Congresso em detrimento da Corte. Para um comunista de toga, é praticamente um crime de lesa-pátria.
O Metrópoles, sempre disponível para servir de caixa de ressonância das “angústias democráticas” da velha imprensa, não perde a chance de vender o episódio como se Dino estivesse, heroicamente, salvando a República do apocalipse orçamentário. É tocante a forma como esse jornalismo militante trata qualquer ato de ministros alinhados ao establishment da esquerda como se fossem capítulos de uma epopeia moral. A narrativa é previsível: o STF, guardião dos bons costumes, estaria apenas tentando pôr ordem na festa do parlamento. Porque, no fundo, para eles, Congresso eleito por voto popular não é exatamente confiável; confiável mesmo é um punhado de iluminados togados, sem voto, mas cheios de poder.
Para dar aquele ar de seriedade dramática, Dino ainda mandou a AGU e o TCU elaborarem um cronograma para analisar as prestações de contas das emendas Pix. Entre 2020 e 2024, segundo a Controladoria-Geral da União, houve indícios de fraude em nove dos dez municípios mais agraciados pelos recursos. Sim, superfaturamentos, obras paralisadas, licitações esquisitas, desvio de objeto contratado… nada que choque quem acompanha a política brasileira. Mas o tom da cobertura é outro: o problema não é a corrupção em si — afinal, isso, no Brasil, já virou personagem de novela. O problema, no subtexto da narrativa, é que os parlamentares ousaram gerir bilhões sem precisar da tutela do STF. E isso, para a imprensa engajada, é imperdoável.
Dino, claro, fez o gesto esperado. Barrou repasses, mandou suspender transferências, acionou a Polícia Federal. O script é perfeito: o ministro aparece como guardião da moralidade, enquanto o Congresso é retratado como uma confraria de malandros de quinta categoria. Nenhuma palavra, porém, sobre a conveniência política de tais movimentos, justamente quando a PEC da Blindagem ameaça colocar freios no poder dos ministros. O timing é tão impecável que beira o cômico.
O mais curioso é que, em vez de questionar a suspeitíssima sincronia dos fatos, o Metrópoles prefere noticiar tudo como se fosse uma missa solene. Dino é retratado quase como um santo laico, iluminado por uma missão transcendental de proteger o Brasil da barbárie parlamentar. O leitor desavisado, ao consumir esse tipo de material, pode até acreditar que Flávio Dino é a última trincheira contra o caos — e não um militante reciclado em ministro do Supremo, agora com superpoderes para interferir onde bem entender.
No fundo, a cena é sempre a mesma: a imprensa esquerdista finge indignação seletiva, o STF se fantasia de salvador da pátria, e o Congresso, mesmo eleito pelo voto popular, é tratado como uma agremiação de marginais. E o brasileiro, esse espectador cansado, continua assistindo à peça repetida, esperando o próximo ato do mesmo teatro onde os papéis já estão ensaiados e os finais previsíveis.
Com informações Metrópoles
















