
É sempre curioso ver como certas figuras que se imaginam guardiãs da Constituição se esforçam tanto para reescrevê-la, linha por linha, parágrafo por parágrafo — não pela via democrática, mas pela retórica autoritária e autorreferente. O post do decano Gilmar Mendes, publicado no X (antigo Twitter), é uma verdadeira ode à inversão da realidade, um monumento ao delírio institucional. Sua tentativa de pintar o Brasil como o epicentro mundial da resistência democrática seria cômica, se não fosse profundamente ofensiva à inteligência dos cidadãos e à própria ideia de liberdade.
É de se espantar que um ministro da mais alta Corte brasileira cite com tanto ardor um “momento histórico” no qual ele próprio, junto com seus pares, decidiu abandonar a toga da imparcialidade para vestir o manto da militância. Segundo Gilmar Mendes, vivemos uma singularidade democrática: ataques à honra dos magistrados, sabotagem de debates públicos e tentativas de golpe — tudo isso, claro, vindo da direita, dos conservadores, dos “extremistas”, nunca do Estado, nunca da Corte, nunca da esquerda.
Enquanto ele aponta o dedo com indignação para supostos golpistas de redes sociais, o mundo observa em silêncio — e até com um certo espanto — a censura judicial sem precedentes que se instalou no Brasil. O ministro faz coro com a nova elite burocrática mundial, que defende regulação das redes sociais não para proteger a democracia, mas para garantir que só uma narrativa sobreviva: a deles. Ironia das ironias, esse discurso é tragado diretamente da cartilha do Partido Comunista Chinês, do qual o próprio Gilmar Mendes parece ser fã — e não por acaso. Afinal, a ditadura chinesa já mostrou com eficiência como se silencia dissidência, manipula algoritmos e controla o discurso público com mão de ferro, tudo em nome da tal “ordem jurídica”.
As decisões judiciais e a conformação de direitos fundamentais no Estado democrático de direito são inerentemente responsivas aos riscos factuais de violação da ordem jurídica.
— Gilmar Mendes (@gilmarmendes) July 10, 2025
O que nenhuma outra democracia contemporânea enfrentou: uma tentativa de golpe de Estado em plena luz…
E aqui está a cereja do bolo da hipocrisia institucional: enquanto o decano se derrete em lamentos sobre “campanhas de desinformação” patrocinadas por empresas de tecnologia, ele convenientemente omite o papel do Estado — do próprio STF — em determinar o que é ou não verdade. Vivemos hoje num cenário em que um juiz pode, de ofício, decidir que um cidadão não tem o direito de opinar, que um parlamentar eleito pode ser calado, que páginas podem ser removidas da internet sem sequer serem ouvidas. E isso é o quê, ministro? Um “imperativo civilizatório”?
É ainda mais grotesco ver Gilmar Mendes colocar a si mesmo e seus colegas no papel de mártires institucionais. “Planos de assassinato”, “ataques virulentos à honra”, “forças que ameaçam o Estado de Direito”. O drama é digno de novela das oito, mas a realidade é bem mais simples: o STF, sob a batuta de ministros como ele, atravessou todos os limites possíveis de intervenção no jogo político. Rasgou o devido processo legal, interferiu em investigações, absolveu amigos poderosos e condenou adversários incômodos. Tudo isso, claro, sob o pretexto de proteger a democracia — uma democracia que, curiosamente, só é legítima quando a esquerda vence.
As grandes economias do mundo, aliás, olham para isso com desprezo silencioso. Nos Estados Unidos, os juízes da Suprema Corte são criticados diariamente pela imprensa, caricaturados em charges, alvos de protestos — e nem por isso se calam cidadãos ou se caçam mandatos. Na Alemanha, partidos com discursos radicais participam do Parlamento sem serem banidos pelo Judiciário. Na França, manifestantes colocam fogo em Paris sem que o Judiciário decrete estado de exceção. Já no Brasil, basta um “like” errado em uma rede social para que o cidadão seja tachado de golpista, investigado e banido da vida pública. Isso não é “resistência democrática”. Isso é tirania de toga com narrativa progressista.
É sintomático que esse discurso de Gilmar Mendes venha em um momento em que o Brasil é escancaradamente criticado por organismos internacionais pela fragilidade de sua liberdade de expressão. Reportagens internacionais apontam, com desconforto, que aqui, hoje, um ministro do STF pode determinar bloqueios de contas sem direito à defesa prévia, em processos sob sigilo, com base em critérios vagos como “ameaça à democracia”. Esse tipo de comportamento, senhor Gilmar, não é praticado em nenhuma democracia ocidental de verdade. É coisa de regime autoritário, de sistema fechado, de governo que se vê como salvador da pátria e não como servidor da sociedade.
Mas, claro, quando se tem o espelho da China, tudo faz sentido. Lá, a ideia de que a sociedade precisa ser guiada por um núcleo de sábios infalíveis — o Partido — encontra eco perfeito nas ideias de certos ministros do Supremo brasileiro. Não à toa, elogiar o modelo chinês virou um modismo entre os novos tecnocratas da moral. Eles não querem proteger a democracia — querem apenas uma desculpa para controlá-la.
Por fim, debochar das palavras de Gilmar Mendes é quase uma necessidade de sanidade. Porque se levássemos a sério cada linha do seu texto, seríamos obrigados a acreditar que a maior ameaça à democracia brasileira vem de um influencer de direita postando memes no Telegram — e não da concentração de poder em um tribunal que não se submete a ninguém, que não é eleito por ninguém, e que tem a audácia de se considerar o último bastião da civilização. Ora, faça-me o favor.
Enquanto os Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Japão e tantas outras nações desenvolvidas se apoiam em instituições sólidas, freios e contrapesos reais, o Brasil se vê refém de ministros que confundem suas biografias com a Constituição. E o povo? O povo segue calado, vigiado, punido — e agora, ridicularizado por um tweet que, na prática, é o verdadeiro retrato do autoritarismo travestido de resistência democrática.
Ironia final: talvez a única coisa inédita mesmo seja o fato de termos um ministro do Supremo que se comporta como influenciador de rede social — só que com poder de censura.
















