
Você já viu essa cena antes. O governo brasileiro, aquele mesmo que vive batendo recorde de arrecadação, resolveu mais uma vez que o problema não é gasto demais, é você pagando de menos. E, como num déjà vu tropical, Fernando Haddad, nosso ministro da Fazenda de estimação, deu o recado com todas as letras: “Neste momento, não há alternativa para o IOF.” Em outras palavras: ou entra dinheiro novo na marra, ou o Brasil desliga o disjuntor.
A reportagem original dos jornalistas Giordanna Neves (Broadcast) e Gabriel de Sousa (Estadão) nos presenteia com uma obra-prima do teatro econômico nacional: um ministro sendo “convidado” (leia-se intimado educadamente) pelos presidentes da Câmara e do Senado a explicar por que decidiu, sem anestesia, aumentar o IOF — aquele imposto que aparece na sua fatura do cartão de crédito, no câmbio, no empréstimo e até no seu plano de previdência. Ah, a previdência! Aquele sonho de aposentadoria que o governo incentiva… até perceber que pode morder um pedaço maior dele.
Segundo Haddad, a alternativa ao aumento seria o quê? Contingenciamento adicional. Para os desavisados, isso significa cortar mais gastos públicos — mas não se anime: não estamos falando de mordomias palacianas, não. Isso geralmente implica travar serviços essenciais, atrasar pagamentos, cancelar programas. Uma espécie de greve do Estado contra a população porque o caixa ficou “magoado”.
E a chantagem vem com data e prazo. O líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues, aquele mesmo que vive em uma simbiose ideológica com o Planalto, foi claríssimo: “O governo externou que a revogação do decreto tem uma consequência clara: shutdown.” Ou seja, se o Congresso derrubar a medida, não teremos governo funcional. Imagina a maravilha que seria.
Claro, isso tudo não é um erro, é estratégia. Como diria qualquer bom marqueteiro econômico, bote um bode na sala. Jogue um aumento brutal de IOF no colo da população, gere reação, e então recue parcialmente — como o governo fez com os fundos no exterior — para parecer que está “ouvindo o povo”. Um teatro calculado, com direito a atos, falas decoradas e, claro, muito imposto no final.
Mas calma que melhora: o ministro ainda nos conta que está “aberto ao diálogo” e que a Federação Brasileira de Bancos (sim, os bancos!) mandou “sugestões” para alternativas ao aumento do IOF. Veja que ironia — os maiores beneficiários de juros altos e lucros astronômicos agora também querem opinar sobre como o Estado deve arrecadar. É quase poético. É como colocar a raposa para ajudar a reformar o galinheiro.
Haddad também lembrou que existem dificuldades “legais” para mexer com medidas estruturantes em 2025. A Constituição, essa chata que vive estragando os planos de aumento imediato de impostos, exige prazos, carências e outras “burocracias”. Por isso, tudo que puder ser feito em 2026, 2027 e 2028 será discutido com carinho. Afinal, quem vive de promessas de longo prazo é governo em fim de mandato.
No encontro com os presidentes das Casas Legislativas, Hugo Motta e Davi Alcolumbre, Haddad ouviu o óbvio: está todo mundo incomodado. É claro que estão. O Congresso já tem mais de 20 projetos para derrubar o decreto, e se o governo insistir em não ouvir ninguém além da própria bolha, a corda vai estourar — e não vai ser no pescoço da elite política.
Agora, enquanto a elite econômica e política joga xadrez com o seu dinheiro, o brasileiro comum — sim, você aí do outro lado da tela — é convocado mais uma vez para resolver a crise fiscal do governo. Porque, veja bem, os R$ 20,5 bilhões esperados com o aumento do IOF neste ano, e os R$ 41 bilhões no próximo, não saem da conta de offshore em paraíso fiscal de nenhum figurão. Eles saem do seu bolso, com carinho, diretamente para os cofres do Leviatã estatal.
E se você achou que o governo estava só testando os limites, saiba que ele já recuou parcialmente — na calada da noite, claro — sobre a taxação dos fundos no exterior. Uma tentativa desajeitada de mostrar boa vontade enquanto mantém firme o aumento sobre quem tem plano de previdência privada ou precisa de crédito. Porque investir para o futuro ou buscar crédito em tempos de inflação é luxo que o governo não quer deixar barato.
Mas Haddad é generoso. Ele promete que, depois da próxima semana (quando os chefes das Casas estiverem disponíveis, sem reuniões de cúpula internacionais ou fotos em tapete vermelho), ele voltará a discutir soluções. Promete mesmo. O ministro diz que quer construir um “horizonte estruturante”. Que beleza! Uma visão para 2026, 2027, 2028… exatamente os anos em que o atual governo talvez já não esteja mais no poder. Planejamento de longo prazo com data de validade garantida.
No fim, o que temos é o clássico samba de uma nota só: o Brasil gasta demais e, para resolver isso, aumenta imposto. Reduzir ministério, cortar gasto, privatizar ou simplesmente revisar contratos inchados não está na pauta. Porque isso, meus caros, dá trabalho, exige enfrentamento político e não gera a narrativa de “responsabilidade social” tão adorada pelos burocratas do século XXI.
Sim, você vai pagar mais caro no câmbio, no seu financiamento, na sua previdência. Mas não se preocupe! O governo está “dialogando”. Há “propostas sobre a mesa”. E como disse Randolfe, essas propostas serão “deglutidas”. O termo é esse mesmo: deglutidas. Como se fossem um almoço leve e nutritivo que será digerido pela máquina pública até o próximo imposto surpresa.
E que fique claro: ninguém está surpreso. Isso tudo é parte de uma cartilha conhecida, que começa com um “não temos alternativa” e termina com um “a culpa é do Congresso se der errado”. A retórica do caos é eficaz: ou aceitamos pagar mais imposto, ou o país para. Como se o país já estivesse funcionando de maneira exemplar.
Enquanto isso, você se pergunta se vale a pena seguir lutando para poupar, investir, crescer. A resposta está no rosto plácido de um ministro que sorri enquanto diz que o problema não são os gastos do governo, é você que está reclamando de pagar imposto.
E assim segue o Brasil: um país onde a elite política finge que corta, os banqueiros sugerem, os ministros ensaiam, e a conta chega — sempre para o mesmo pagador.
Parabéns, contribuinte. Você acaba de ser promovido a mantenedor vitalício do improviso estatal. Com direito a IOF, juros altos e, claro, um futuro promissor… se sobreviver até lá.
Com informações Estadão
















