Idosos enfrentam filas e humilhação nas madrugadas do RJ por Cartão Jaé de gratuidade

Enquanto a propaganda oficial da Prefeitura do Rio de Janeiro vende a ideia de modernidade e inclusão com o novo Cartão

Por Notas & Informações

Enquanto a propaganda oficial da Prefeitura do Rio de Janeiro vende a ideia de modernidade e inclusão com o novo Cartão Jaé, a realidade nas ruas é bem diferente. O que deveria ser uma simples atualização no sistema de gratuidade dos transportes municipais virou um verdadeiro pesadelo para milhares de idosos. O relato da jornalista Anna Bustamante, do Extra/O Globo, é um retrato fiel da desorganização, do descaso e da completa falta de empatia de uma gestão pública que prefere o marketing de rede social à dignidade dos cidadãos.

Basta olhar para o caso de Maria do Carmo Cotrim, de 67 anos. Essa senhora, que trabalhou a vida inteira e agora deveria ter ao menos o direito de circular pela cidade com respeito, foi obrigada a sair de casa às 2h30 da manhã, em plena escuridão, para garantir um lugar na fila de atendimento em Madureira. A razão? O temor de perder o benefício que, para muitos, significa a única forma de locomoção para ir ao médico, fazer compras ou simplesmente manter alguma qualidade de vida. Sem estrutura, sem segurança e com medo de se tornar mais uma vítima da violência urbana, ela esperou sozinha até o dia amanhecer. O resultado é uma cena que deveria envergonhar qualquer gestor público minimamente responsável.

O que dizer de Edna Maria Barbosa, de 65 anos? A senhora precisou acordar o próprio filho às 4h30 da manhã para não enfrentar a madrugada sozinha. A preocupação dela não era apenas com a burocracia, mas com a própria segurança física. Isso sem contar os transtornos enfrentados por Maria de Lourdes Dias Nogueira, de 74 anos, que, mesmo depois de horas de fila, voltou para casa sem solução, graças a um sistema que simplesmente “caiu”. Uma humilhação que se repete dia após dia, como se a vida desses cidadãos não valesse absolutamente nada para o poder público.

O problema é agravado pela incompetência tecnológica. Enquanto a prefeitura insiste que o processo pode ser feito via aplicativo, a maioria dos idosos sequer tem familiaridade com o mundo digital. Mesmo os que tentaram o caminho virtual enfrentaram outro tipo de descaso: cartões que nunca chegaram, cadastros perdidos e a absurda cobrança de segunda via por um erro que não foi deles. O caso de Demorci Ávila do Nascimento, de 72 anos, é um exemplo claro dessa perversidade burocrática: ele fez o pedido em janeiro, foi informado em março que o cartão foi extraviado e, para piorar, precisou pagar R$ 40 por uma segunda via que nunca recebeu. Onde está o respeito ao idoso prometido em tantas campanhas eleitorais?

Enquanto isso, a fila cresce. Às 6h da manhã, mais de 100 idosos se amontoavam, sem cadeiras, sem sombra, encostados nas paredes, tentando driblar o cansaço de horas em pé. Só depois de novas críticas públicas, alguns bancos de plástico e até caixas d’água improvisadas começaram a aparecer para amenizar o sofrimento. Um claro sinal de improviso, desorganização e falta de planejamento.

A solução apresentada pela prefeitura? Um pedido de desculpas feito pelo vice-prefeito Eduardo Cavaliere e pela secretária de Transportes Maína Celidonio, acompanhado de promessas de ampliação de postos e de atendimento até aos sábados. Medidas paliativas e tardias que não apagam a vergonha causada nas últimas semanas. O problema é que quem precisou acordar de madrugada, quem passou fome na fila e quem enfrentou horas de pé em condições desumanas dificilmente esquecerá o desprezo institucional que sofreu.

Essa situação é mais do que um erro de gestão: é um retrato de como o poder público enxerga os idosos no Brasil. Enquanto gastam fortunas em publicidade e campanhas de autoelogio, deixam os mais vulneráveis enfrentando o frio, a violência urbana e o risco de perder um direito básico. É a velha lógica da política populista: na hora da foto, o idoso é prioridade; na vida real, ele é apenas um número em meio ao caos administrativo.

O episódio do Cartão Jaé, conforme expôs com clareza a jornalista Anna Bustamante, do Extra/O Globo, é uma demonstração de que a modernização feita às pressas, sem planejamento e sem respeito ao cidadão, só serve para aumentar a desigualdade e expor a população idosa a situações humilhantes. Cabe ao eleitor, na próxima eleição, lembrar de quem promoveu essa vergonha coletiva e exigir uma administração que trate seus cidadãos com a dignidade que eles merecem.

Com informações Extra/O Globo

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