Janja, Alexandre de Moraes e Lewandowski voam juntos em jato da FAB para São Paulo

Certas imagens valem mais do que mil palavras. Outras, como as que chegaram à coluna do jornalista Igor Gadelha, valem mais

Por Notas & Informações

Certas imagens valem mais do que mil palavras. Outras, como as que chegaram à coluna do jornalista Igor Gadelha, valem mais do que mil justificativas. Um clique revelador da elite do poder brasileiro – Janja da Silva, esposa do presidente Lula; Alexandre de Moraes, ministro do STF; e Ricardo Lewandowski, atual ministro da Justiça – desembarcando juntos, plenos e sorridentes, da aeronave da Força Aérea Brasileira no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Em tempos normais, talvez passasse despercebido. Mas no Brasil de hoje, onde a linha entre os poderes está mais borrada do que nunca, cada detalhe importa. E muito.

Segundo o relato de Gadelha, a viagem ocorreu no dia 13 de junho. A desculpa oficial? Janja tinha uma “consulta ginecológica” marcada e pegou uma carona institucional com os ministros que já haviam requisitado o voo. Tudo dentro da legalidade, segundo a Aeronáutica. Ah, claro. Porque no Brasil, legalidade e moralidade raramente caminham lado a lado. Enquanto isso, milhões de brasileiros, aqueles que sustentam essa máquina pública inchada, enfrentam filas no SUS, pagam planos de saúde caros ou simplesmente sofrem calados diante da precariedade dos serviços.

A narrativa de que a carona “não gerou custos adicionais para a União” é, no mínimo, um deboche. Como se o problema fosse o valor do querosene de aviação e não o que a imagem representa: uma cúpula político-judiciária se movimentando em bloco, sem qualquer constrangimento, sem nenhum pudor institucional. Se um juiz do STF viaja com a esposa em avião militar, acompanhado da primeira-dama e do ministro da Justiça, é lícito se perguntar: quem fiscaliza quem? Quem impõe limites? Quem garante a separação entre os Poderes?

Há uma aura de informalidade luxuosa que envolve esses episódios. Vira rotina. Não é o primeiro, nem será o último caso de uso da FAB para fins “não oficiais”. Só nesta gestão, já tivemos filhos de Lula voando confortavelmente ao lado de ministros, candidatos políticos pegando carona rumo a reuniões de interesse partidário, esposas de magistrados embarcando como se fossem autoridades. Tudo dentro da legalidade, repetem os porta-vozes, com aquele sorriso cínico que só quem está no topo da pirâmide consegue sustentar diante da população.

O problema não é técnico. É moral. É simbólico. É político. Não se trata apenas de uma viagem. Trata-se do recado que ela passa: de que há uma elite protegida por blindagens invisíveis, imune ao escrutínio público, acima das limitações que o cidadão comum enfrenta. De que a estrutura do Estado serve, em última instância, para os seus – não para os pagadores de impostos, mas para os donos do poder.

E o que dizer da presença de Alexandre de Moraes, o mesmo que se diz alvo constante de ameaças e que por isso prioriza voos da FAB? Estranhamente, o medo desaparece quando é para dividir cabine com aliados políticos. O medo de um atentado parece não existir quando a agenda encaixa com o conforto de um voo conjunto, com direito a área exclusiva de embarque e desembarque, sem contato com o “povão”. O mesmo povo que é acusado de “atentar contra a democracia” por expressar opiniões em redes sociais, enquanto nos bastidores a democracia vai sendo desmontada pela promiscuidade institucional.

Não há indignação na grande imprensa. Não há investigações no Congresso. Não há processos no CNJ ou na PGR. Há apenas silêncio. Um silêncio cúmplice, um silêncio funcional, que protege esse tipo de articulação sob o manto da normalidade. Porque o que importa é manter o sistema funcionando para os seus. E que se dane o resto.

A assessoria de Janja, ao confirmar a viagem, se esforça para parecer técnica, racional, isenta. Como se fosse comum a primeira-dama da República viajar em aeronaves militares para consultas pessoais. Como se fosse aceitável que ministros levassem esposas e amigos como se fossem parte da comitiva oficial. Como se o fato de “não gerar custo adicional” fosse suficiente para encobrir o verdadeiro custo: o da credibilidade das instituições, o da confiança popular, o da ética pública.

Para o cidadão conservador que ainda acredita na moralidade como pilar da República, episódios como esse não surpreendem – apenas confirmam a deterioração institucional acelerada. A esquerda brasileira já não faz questão de esconder seus laços, seus círculos de proteção e seu domínio sobre os três Poderes. E quando o Judiciário compartilha o mesmo avião com o Executivo, não é apenas uma carona – é um símbolo do que restou da independência entre eles: uma ilusão.

Evidentemente, a carona “não é irregular”, como afirma o decreto que regulamenta o transporte de autoridades. Mas quando foi que a legalidade bastou para sustentar a ética? Desde quando a ausência de proibição explícita serve de aval para práticas questionáveis? Um conservador liberal sabe que as instituições precisam de mais do que regras escritas – precisam de princípios. E quando os princípios são abandonados, a República vira apenas um palco de conveniências, onde cada ato está ensaiado para preservar os interesses dos mesmos de sempre.

Em tempos normais, essa viagem mereceria uma CPI. Mas no Brasil atual, ela vira apenas nota de rodapé, tratada com indiferença pelo sistema que a perpetua. Porque enquanto o povo debate nas redes sociais, eles viajam juntos – de carona, de toga, de terno ou de vestido – sob o mesmo teto, no mesmo avião, sustentados pelo mesmo contribuinte.

Como escreveu Igor Gadelha, o voo partiu de Brasília às 9h15 e pousou em Congonhas às 10h50. Rápido, discreto, eficiente. Assim é o novo Brasil: governado por círculos fechados que viajam acima das nuvens, enquanto o povo segue preso ao chão das promessas não cumpridas.

No fim, a viagem de Janja e Moraes não foi só um deslocamento geográfico. Foi uma metáfora viva da aliança silenciosa entre os que se julgam acima da lei, mas que não passam de passageiros de um Estado cada vez mais distante do seu povo.

Com informações Metrópoles

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