
O discurso recente do presidente Lula, compartilhado em suas redes, busca mais do que uma simples celebração cultural ou cívica; ele se apresenta como um espetáculo cuidadosamente encenado para moldar percepções e ressignificar a história recente do Brasil. Ao saudar artistas que se uniram a multidões nas ruas em defesa da “justiça” e contra a “impunidade”, o presidente revive narrativas já manjadas do passado, tentando transformar mobilizações atuais em uma espécie de continuação épica das lutas democráticas dos anos 70 e 80. É uma estratégia que mistura nostalgia e política, costurando o presente com memórias seletivas de momentos históricos emblemáticos, como a redemocratização e o movimento das Diretas Já. Mas a pergunta que se impõe é: até que ponto essa narrativa reflete a realidade ou apenas a idealização conveniente de um governo que procura reforçar sua legitimidade por meio de símbolos e emoções coletivas?
Lula cuidadosamente menciona os anos 70, evocando a figura do artista como aliado do povo em busca de liberdade, e as Diretas Já, quando “entoados ao lado do povo” clamavam pelo direito de eleger o presidente. Trata-se de uma construção retórica que mistura fatos históricos com leituras subjetivas, apresentando-se como um defensor nato da democracia, enquanto ignora episódios de seu próprio passado e das escolhas políticas que marcaram sua trajetória. É a velha arte de reescrever a história: usar momentos de união e esperança da sociedade para legitimar ações políticas presentes, mesmo quando essas ações carecem de transparência ou confrontam princípios básicos de responsabilização pública.
A manipulação da memória histórica não é um fenômeno novo na política brasileira, mas ganha contornos especialmente audaciosos quando conduzida por figuras com trajetória marcada por controvérsias legais e políticas. Ao enfatizar que a mobilização cultural de artistas nas ruas representa “a maior de todas as artes: o espetáculo da democracia”, Lula transforma uma ação política legítima em ritual simbólico, em espetáculo emotivo que busca adesão e aclamação popular. Mas o que se esconde por trás dessa narrativa é a tentativa de suavizar críticas, neutralizar opositores e consolidar a imagem de um líder sempre alinhado aos anseios populares, mesmo que os fatos não correspondam à idealização apresentada. É uma narrativa cuidadosamente arquitetada para engajar corações, mais do que mentes, em um momento de polarização intensa no país.
Quero saudar todos os artistas que se uniram ontem a dezenas de milhares de pessoas nas ruas de todo o Brasil para defender a justiça e lutar contra a impunidade e a anistia. Isso nos traz a lembrança dos anos 70, durante a redemocratização, quando suas vozes se somaram à voz de…
— Lula (@LulaOficial) September 22, 2025
A referência aos artistas e à mobilização nas redes sociais também revela um aspecto peculiar da política contemporânea: a construção de legitimidade por meio da performatividade digital e da cultura popular. Lula não celebra apenas a participação cidadã; ele a transforma em peça de propaganda, reforçando sua presença em territórios simbólicos que historicamente despertam emoções fortes: o palco, a rua, a memória da liberdade conquistada. É a velha política da sedução, onde símbolos, cores e vozes se sobrepõem à análise crítica, e o espetáculo se torna mais relevante que a substância. Ao mesmo tempo, essa narrativa busca criar uma falsa equivalência entre a mobilização democrática genuína do passado e os atos atuais, como se cada gesto ou hashtag fosse expressão inequívoca de compromisso com os mesmos valores que moldaram a história do país.
Ao parabenizar “cada brasileiro e cada brasileira” que participou das mobilizações, Lula estende sua retórica a uma dimensão quase universal, tentando colocar-se acima de disputas partidárias e transformando um ato político específico em causa nacional. O que se observa, no entanto, é a intenção clara de amplificar sua própria imagem como defensor incontestável da democracia, enquanto deixa em segundo plano debates essenciais sobre responsabilidade, governança e transparência. É um movimento típico de líderes que entendem que a emoção coletiva pode ser mais eficaz do que qualquer argumento racional na consolidação do poder político.
O resultado é um discurso cuidadosamente moldado para seduzir, impressionar e consolidar narrativas favoráveis, enquanto suaviza ou omite críticas legítimas. A arte da democracia, como Lula a apresenta, torna-se espetáculo emocional, quase performático, em que o passado é reinterpretado e o presente é encantado com promessas de legitimidade. Para o observador crítico, a questão permanece: será que a emoção e o espetáculo realmente refletem a realidade política e histórica, ou apenas criam uma ilusão cuidadosamente construída para moldar percepções e conquistar apoio? No fim, o texto revela menos sobre a democracia brasileira e mais sobre a capacidade de líderes em manipular símbolos, memória e cultura para projetar poder e construir consenso em meio à complexidade de uma sociedade plural e crítica.
















