
Enquanto o cidadão brasileiro enfrenta um cenário de estagnação econômica, inflação persistente e serviços públicos em frangalhos, Luiz Inácio Lula da Silva aparece em mais uma cerimônia pomposa no Palácio do Planalto para anunciar o que considera um novo “ciclo de prosperidade”. Mas não se trata, claro, de prosperidade para o brasileiro comum. Não, senhor. O presidente está mesmo é entusiasmado com investimentos brasileiros na Angola, um país que, embora amigo histórico, ainda luta para se estabilizar política e economicamente. Mas, para Lula, isso pouco importa. O foco é transformar o empresariado brasileiro — você leu certo, o brasileiro — em uma espécie de anjo da guarda do governo angolano.
Em evento com o presidente João Lourenço, Lula fez questão de repetir em alto e bom som que “Angola sempre foi um bom pagador”, tentando convencer o empresariado a abrir suas carteiras e se lançar de olhos fechados em projetos de infraestrutura, energia e transporte no país africano. O curioso é que, quando se trata de facilitar investimentos e crédito aqui no Brasil, o mesmo entusiasmo desaparece. Bancos públicos travam financiamentos, o BNDES anda seletivo, e a Petrobras vive um impasse diário sobre o que pode ou não fazer sob o novo comando lulista.
Mas vamos aos fatos. Lula acredita — ou quer nos fazer acreditar — que o melhor momento comercial entre Brasil e Angola está logo ali, na esquina. Segundo ele, isso será possível graças a uma série de acordos firmados com o governo angolano, que preveem desde a reabertura de linhas de financiamento até o retorno da Petrobras à prospecção de petróleo em território angolano. Tudo muito bonito, muito romântico. E a conta, como sempre, vem para quem? Para o contribuinte brasileiro e o empresariado que, na prática, já carrega nas costas um dos sistemas tributários mais pesados do planeta.
Lula ainda afirmou que o Brasil já teve um fluxo comercial com Angola de US$ 4,5 bilhões, mas que hoje esse número está em US$ 1,5 bilhão. A lógica lulista, portanto, é simples: se antes o comércio era mais forte, então precisamos fazer de tudo para voltar a esse patamar. Mas o que não se explica é por que esse número caiu. Seria excesso de burocracia? Desconfiança mútua? Instabilidade em Angola? Ou, quem sabe, a percepção de risco elevada para os investidores? Nada disso foi abordado. O que importa é inflar os números e vender otimismo.
Em um trecho de seu discurso, Lula reforça que ninguém deve ter medo de vender para Angola, pois o país “cumpre seus deveres”. Bonito de ouvir. Mas será que é mesmo papel do presidente da República fazer marketing de crédito internacional como se fosse garoto-propaganda de banco estatal? O que vemos é mais um capítulo da diplomacia emocional do governo petista, que sempre flerta com o populismo internacional — especialmente quando envolve países governados por aliados ideológicos ou ex-colônias portuguesas.
E aí entra em cena o velho BNDES, aquele que foi usado nos anos anteriores para financiar obras de engenharia em Cuba, Venezuela e, sim, Angola. Lembram-se do Porto de Mariel em Cuba? Ou das estradas construídas com dinheiro brasileiro na Venezuela? Pois é. Muitos desses financiamentos sequer foram pagos. E quem cobre o rombo? O trabalhador brasileiro, que vê escolas caindo aos pedaços, hospitais lotados e rodovias em estado deplorável.
João Lourenço, por sua vez, fez sua parte como anfitrião agradecido. Disse que quer ver investimentos privados brasileiros em Angola e até mesmo angolanos investindo no Brasil. Um gesto cordial, mas simbólico. A verdade é que o Brasil entra com o capital, a estrutura e o risco — e Angola entra com a esperança de se reerguer. O problema não está no gesto diplomático em si, mas na forma como isso está sendo empacotado por Lula como um “projeto de interesse nacional”. Interesse de quem, exatamente?
A lista de obras a serem feitas em Angola é extensa: estradas, ferrovias, aeroportos, portos, infraestrutura hídrica e energética. Um verdadeiro PAC africano, mas com dinheiro brasileiro. Lourenço pareceu honesto ao dizer que seu país precisa dessas obras. Mas será mesmo que o Brasil, que não dá conta nem de duplicar BRs ou resolver a crise do saneamento básico, está em condições de bancar esse tipo de aventura?
Na área de defesa e segurança, a conversa foi ainda mais surreal. Lula anunciou que o Brasil vai buscar viabilizar a venda de aviões K-190 da Embraer para Angola, além de restaurar aeronaves Super Tucano. Tudo financiado, claro, com apoio do BNDES. Uma gentileza cara e, de novo, bancada com o nosso bolso. A pergunta que fica é: quem autorizou o governo a usar instituições públicas como trampolim de projetos internacionais, sem consulta popular, sem transparência, e com base em acordos firmados a portas fechadas?
Como se não bastasse, Lula encerrou seu discurso com uma homenagem ao falecido fotógrafo Sebastião Salgado, figura respeitada no cenário internacional. Um gesto compreensível do ponto de vista humano, mas que não mascara o pano de fundo do evento: a obsessão do presidente por colocar os interesses internacionais — e os laços ideológicos com países “irmãos” — acima das necessidades urgentes do povo brasileiro.
Este é o retrato de um governo que prefere olhar para fora enquanto o povo sofre dentro. Que prioriza a política de camaradagem internacional à política de resultados concretos para quem paga impostos. Que vende a ideia de desenvolvimento global, mas esquece o esgoto a céu aberto nas periferias das grandes capitais. Que fala em reconstruir laços com Angola, mas abandona o pequeno empreendedor nacional à própria sorte.
O mais espantoso é ver como a mídia estatal, que deveria funcionar como instrumento de prestação de contas à população, trata o evento com tom glorificado. A matéria de Pedro Peduzzi, da Agência Brasil, é factual e precisa, mas serve de trampolim para um governo que se esmera em autoelogios e manipulação de imagem. Os termos usados — “bom pagador”, “acordos firmados”, “cooperação estratégica” — são cuidadosamente selecionados para evitar qualquer tipo de questionamento mais profundo. E o resultado é uma narrativa artificialmente otimista, onde tudo parece caminhar às mil maravilhas, desde que você não olhe para o cenário interno.
Enquanto isso, aqui no Brasil, seguimos com um cenário de empresas sufocadas por tributos, um sistema jurídico que pune o empreendedor e uma máquina pública que consome cada centavo de produtividade gerado com suor. Mas Lula quer que os empresários invistam… na África. Porque, segundo ele, é lá que reside a “confiança”.
É impressionante como o mesmo governo que dificulta a vida de empresas brasileiras com reformas trabalhistas retrógradas, impostos sufocantes e insegurança jurídica é o mesmo que se mostra tão generoso com regimes amigos no exterior. O dinheiro, quando é para fora, aparece. Quando é para investir em estradas no Nordeste, em escolas no interior, em hospitais nas capitais, aí falta verba, falta projeto, falta planejamento.
No fim das contas, o discurso de Lula é mais do mesmo. A velha retórica de “solidariedade entre os povos” usada para justificar gastos e aventuras que pouco ou nada beneficiam o brasileiro. Uma estratégia já conhecida por quem viveu os anos anteriores de governos petistas: primeiro exporta-se ideologia, depois exporta-se crédito — e, por último, importa-se o prejuízo.
Se Angola precisa se desenvolver, que o faça com parcerias justas, transparentes e mutuamente vantajosas — e, acima de tudo, com responsabilidade fiscal. O que não dá é para transformar o empresariado brasileiro em mecenas de regimes estrangeiros, enquanto falta tudo nos hospitais, nas escolas e nas ruas do nosso próprio país.
Com informações Agência Brasil
















