
Em um dos raros momentos em que a franqueza escapou do controle calculado de um político veterano, Luiz Inácio Lula da Silva, à época ainda sindicalista em ascensão, deixou escapar uma confissão incômoda durante entrevista à jornalista Eliane Cantanhêde, então da Folha de S.Paulo. Ao comentar sobre o processo político da Venezuela sob Hugo Chávez, Lula não apenas demonstrou simpatia pelo discurso do militar venezuelano, como admitiu, sem rodeios, a existência de corrupção no Supremo Tribunal Federal brasileiro. A fala, quase esquecida nos arquivos da imprensa, retorna com um peso peculiar no atual cenário de desconfiança entre sociedade, instituições e a política tradicional.
O episódio começou com uma comparação incômoda. Questionado sobre a semelhança de sua retórica com a de Chávez, Lula tentou relativizar, afirmando que não conhecia profundamente os discursos do venezuelano. Ainda assim, não hesitou em classificar como “fantástico” o movimento político que levou Chávez a propor uma Constituinte para “corrigir” as estruturas, que segundo ele, estavam apodrecidas. Ao resgatar a narrativa, Lula reconheceu que o projeto bolivariano despertava temor em elites regionais, justamente por resgatar noções de soberania nacional e de proteção a empresas nacionais, valores que ele insinuava como positivos. Mas o detalhe mais explosivo não estava na exaltação do chavismo, e sim em sua avaliação sobre a realidade brasileira.
No meio de sua explanação, ao comparar a Venezuela com a experiência constitucional de 1988 no Brasil, Lula disse de forma direta: “Tem corrupção no poder judiciário. Tem em todas as esferas. Tem”. A afirmação, feita sem filtros, desnudou algo que até hoje reverbera de maneira implícita nos bastidores de Brasília. Se um sindicalista do Partido dos Trabalhadores, ainda em busca de legitimação nacional, sentia-se confortável para declarar que havia corrupção no Supremo, o que não estaria implícito sobre a real dimensão das distorções dentro do poder judiciário? O comentário, tratado na época como uma provocação isolada, talvez seja um dos registros mais autênticos da percepção política sobre o tribunal que deveria ser o guardião máximo da Constituição.
O desconforto causado por declarações como essa transcende a mera curiosidade histórica. Em um país em que a estabilidade institucional depende, em larga medida, da confiança pública em seus tribunais, ouvir de um futuro presidente da República que o próprio Supremo estaria contaminado por práticas corruptas é mais do que uma nota de rodapé. É um indício de que, mesmo nos círculos mais próximos ao poder, a ideia de um Judiciário imune a vícios é ilusória. Se Lula admitiu publicamente o problema, o que dizer dos bastidores silenciosos onde a troca de favores, decisões liminares contraditórias e manobras políticas são discutidas longe dos olhos da sociedade?
A menção de Lula também expôs um dilema persistente: a dificuldade de investigar e responsabilizar magistrados. Ele próprio reconheceu a necessidade de controle externo, mas se mostrou contrário a investigações diretas sobre o Judiciário, revelando uma contradição típica de quem denuncia mas não pretende avançar. O diagnóstico estava lançado, mas a solução foi postergada indefinidamente. Décadas depois, a sensação de impunidade permanece, alimentando a percepção de que as mais altas cortes do país operam em um terreno intocável.
A entrevista também permite enxergar um traço recorrente do discurso político da esquerda latino-americana: a tentativa de legitimar líderes populistas sob o pretexto de combater elites “perversas” que ignorariam os problemas sociais. Ao defender que Chávez merecia uma chance, Lula reforçou a tese de que regimes que relativizam a separação de poderes poderiam ser tolerados, desde que embalados em um discurso de justiça social. Essa leitura, no entanto, revela a perigosa naturalização da corrosão institucional. A Venezuela, cujo caminho autoritário se consolidou sob o mesmo processo inicialmente elogiado por Lula, tornou-se um exemplo trágico de como tais experimentos resultam em miséria, exílio em massa e democracia reduzida a um adereço retórico.
A admissão sobre corrupção no Supremo, associada à defesa circunstancial de um projeto autoritário vizinho, compõe um retrato revelador da forma como a política brasileira enxerga suas próprias instituições. Ao mesmo tempo em que denuncia falhas graves, evita qualquer avanço real que possa trazer transparência, preferindo manter a retórica como ferramenta de conveniência. O resultado é um ciclo em que a desconfiança pública cresce, mas as estruturas permanecem intactas.
Hoje, quando debates sobre a atuação do Supremo Tribunal Federal voltam a ocupar o centro da vida nacional, revisitar aquelas palavras de Lula é inevitável. Elas ecoam como uma lembrança de que não se trata de uma crítica surgida apenas em tempos recentes, movida por polarizações ou disputas partidárias. A própria liderança máxima da esquerda brasileira já havia apontado, em plena entrevista jornalística, que havia algo de errado na corte mais importante do país. Não foi um adversário político, não foi um analista conservador, não foi uma denúncia de bastidores: foi uma confissão espontânea.
Resta, portanto, a pergunta que paira sobre a consciência nacional: se há tanto tempo já se falava em corrupção dentro do Supremo, o que foi feito desde então para sanear as estruturas? A resposta, até aqui, é desconfortável. Pouco ou nada foi feito. E a cada nova decisão polêmica, a cada demonstração de poder absoluto sem contrapeso, cresce a percepção de que os alertas foram ignorados. O silêncio institucional pode ter garantido estabilidade de curto prazo, mas a longo prazo mina a credibilidade de quem deveria ser a última instância de justiça.
Talvez seja justamente por isso que essa entrevista perdida no tempo ainda incomode. Ela não apenas registra a contradição de um líder que denunciava e ao mesmo tempo relativizava, mas também expõe uma verdade que muitos prefeririam enterrar: a corrupção no coração do Judiciário brasileiro não é invenção de opositores, mas um diagnóstico verbalizado pelo próprio Lula. E é dessa franqueza rara, quase acidental, que emergem as perguntas que insistem em não se calar.
















