
No Brasil, país onde a piada já vem pronta, ficamos diante de mais um espetáculo tragicômico da política nacional. O título do artigo de Mariana Muniz, publicado em O Globo, já entrega o enredo: “Lula reconduz Gonet à chefia da PGR às vésperas de julgamento de Bolsonaro na trama golpista”. Parece até roteiro barato de novela mexicana, onde o vilão distribui cargos como quem distribui pirulitos, e o mocinho é pintado como criminoso por ousar contrariar o sistema. Só falta o narrador avisar: “não perca o próximo capítulo, com lágrimas, traições e, claro, muito cinismo”.
Luiz Inácio Lula da Silva, esse senhor que se fantasia de democrata mas age como coronel da velha política, decidiu renovar o carinho pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet. Reconduziu o homem ao cargo antes mesmo de acabar o primeiro mandato, como quem sela um pacto silencioso, daqueles que a esquerda adora fazer nos bastidores, sempre embalados por discursos inflamados de defesa da “democracia”. Ah, a democracia lulista: aquela em que adversário é inimigo, onde o crime é relativo e onde o Judiciário já sabe de antemão qual é o veredito esperado. Tudo em nome do “povo”, claro.
Gonet, esse procurador que deveria ser guardião da lei, parece mais um personagem obediente dentro do teatro armado pelo Planalto. Repare na coincidência: sua recondução vem justamente às vésperas do julgamento que pode condenar Jair Bolsonaro por suposta “trama golpista”. Claro, porque quando o assunto é Bolsonaro, o roteiro já está pronto. O procurador aparece com um relatório de 500 páginas para provar o óbvio: que o ex-presidente é, segundo ele, um conspirador incorrigível. O detalhe é que provas concretas parecem ser um luxo desnecessário. O importante é repetir a narrativa, embalá-la em juridiquês pomposo e entregar ao STF a peça que ele deseja ouvir.
É curioso como Paulo Gonet se apresenta. Discreto, reservado, cuidadoso. Para alguns, sinônimo de prudência. Para outros, apenas a habilidade de quem prefere se esconder atrás de um verniz técnico para justificar decisões politicamente convenientes. A imprensa, claro, trata-o como alguém de “perfil equilibrado”, quando na prática é apenas mais um que sabe qual música precisa tocar para não ser desafinado no coral do sistema. E Lula, sempre esperto, entendeu que manter Gonet no comando é garantia de paz. Afinal, se o procurador já entregou até agora tudo o que o Planalto desejava, por que arriscar mudar a peça no tabuleiro?
Mariana Muniz descreve que a recondução foi vista como um gesto de confiança. Que bela palavra para disfarçar o óbvio: é um cheque em branco para que Gonet siga sendo o fiel escudeiro no combate ao inimigo político comum, Jair Bolsonaro. Não é curioso que essa “confiança” venha justamente quando a PGR insiste em culpar Bolsonaro de cinco crimes, como se o ex-presidente fosse o único ser humano no Brasil com a capacidade sobrenatural de conspirar contra a pátria? Lula agradece, o STF aplaude e o procurador se gaba de estar “dedicado à causa da Justiça”. Justiça, nesse dicionário, significa perseguir seletivamente e inocentar aliados convenientes.
O mais saboroso é notar que Gonet, de vez em quando, ousa fingir independência. Já denunciou Juscelino Filho, já cutucou até José Dirceu, mas sempre com aquela cautela ensaiada, sem nunca desagradar demais ao chefe do Planalto. É a velha tática: dar uma no cravo e outra na ferradura, para manter a aparência de equilíbrio. Mas quando o assunto é Bolsonaro, aí não há freio. O discurso sobe, as páginas se multiplicam, e as acusações viram espetáculo. É o inimigo perfeito para justificar a recondução: Lula posa de estadista, o PGR de herói da democracia, e o país segue afundado no lamaçal da hipocrisia institucional.
E como ignorar a ironia? O mesmo Lula que teve suas condenações anuladas por amigos togados no STF, agora fala em estabilidade democrática ao manter Gonet no cargo. O mesmo homem que fez carreira política gritando contra o “toma-lá-dá-cá”, hoje se reúne sorridente no Planalto para selar acordos silenciosos com o procurador que, veja só, não constava nem na lista tríplice dos procuradores. Mas quem precisa de lista quando se tem a caneta presidencial? Para Lula, democracia é escolher sozinho e chamar de coletivo. É a velha prática da esquerda: ignora-se a regra e depois inventa-se uma justificativa ideológica.
Enquanto isso, Gonet segue agradecendo. Publica nota exaltando sua dedicação ao país, como se não fosse óbvio que seu principal papel tem sido sustentar a narrativa que mantém Lula confortável e Bolsonaro sob ataque. Ele fala em empenho, mas a impressão é de que seu maior empenho é em agradar ao poder de plantão. Talvez, em sua cabeça, esteja escrevendo um capítulo nobre da história da Justiça brasileira. Mas para o brasileiro comum, já acostumado ao cinismo das instituições, tudo soa como mais uma farsa mal encenada.
No fim, a recondução de Gonet nada mais é do que a consagração de um pacto: Lula precisa de um PGR dócil, e Gonet precisa de prestígio e segurança no cargo. Um casamento de conveniência, celebrado sob o pretexto de proteger a democracia, mas que tem como verdadeira finalidade blindar o sistema contra qualquer risco de contestação. E, nesse teatro, Bolsonaro vira o inimigo a ser destruído, não por seus atos, mas por representar a ameaça real à hegemonia lulista.
É assim que seguimos: com um presidente que se diz guardião do povo, mas governa para si; um procurador que se apresenta como defensor da lei, mas age como aliado do Planalto; e uma imprensa que repete o enredo como se fosse verdade absoluta. O Brasil, afinal, é mesmo uma tragicomédia sem fim.
Com informações O Globo
















