
Lula decidiu reagir. Não com diplomacia refinada, nem com uma estratégia econômica sólida, mas com aquilo que melhor representa sua visão de mundo: intervencionismo estatal disfarçado de soberania nacional. Na esteira de uma ofensiva comercial do presidente Donald Trump, que impôs tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, o Planalto resolveu regulamentar a Lei da Reciprocidade Econômica, um dispositivo que dormia nos escaninhos do Congresso desde abril, aprovado sob pressão do agronegócio, mas até então ignorado pelo próprio governo petista. O timing da medida é revelador: não se trata de proteção à indústria nacional ou ao agro, mas de mais um gesto ideológico travestido de política pública.
O decreto, que será publicado no Diário Oficial da União nesta terça-feira, cria um comitê permanente para reagir a decisões unilaterais de parceiros comerciais. Em tese, soa como um mecanismo legítimo de defesa nacional. Na prática, trata-se de uma cortina de fumaça para uma administração que se recusa a enxergar sua responsabilidade no deterioramento das relações com os Estados Unidos — especialmente agora, com Trump de volta à Casa Branca e sem qualquer disposição para diplomacia com países cujo governo flerta abertamente com ditaduras bolivarianas.
Conforme relatado pelo jornalista Augusto Tenório, do Metrópoles, o presidente Lula assinou o decreto justamente às vésperas de reuniões entre o vice-presidente Geraldo Alckmin e empresários afetados pela medida americana. A coincidência de datas não é trivial. Serve de palco para um teatro de ação estatal, no qual o governo tenta mostrar força, enquanto internamente se esfacela na condução econômica e na articulação com os setores produtivos. E, claro, tenta isolar o verdadeiro motivo do tarifaço de Trump: a perseguição judicial contra seu aliado Jair Bolsonaro, conduzida com zelo suspeito pelo Supremo Tribunal Federal.
Mais uma vez, o Brasil assume o papel de vítima internacional, como se não tivesse provocado sua própria instabilidade institucional. O PT tem recorrido ao mesmo script desgastado: quando confrontado com reações severas do mercado ou de outros governos, transfere a culpa, se diz injustiçado e clama por retaliações. A Lei da Reciprocidade, nesse contexto, é apenas mais uma ferramenta de encenação.
Enquanto isso, a coordenação do comitê será atribuída a Alckmin, um político que vem se especializando em aceitar o papel de decorativo. Acumulando também o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Alckmin anunciou que irá dialogar com empresas americanas e entidades como a Amcham. Bonito no discurso. Mas, na realidade, o Brasil pouco tem a oferecer em negociação quando está sentado à mesa com uma economia que deixou claro que não tolerará chantagens políticas.
O governo Lula ainda insiste em maquiar seu autoritarismo com supostos gestos de diplomacia. Quer envolver os ministros Rui Costa, Mauro Vieira e Fernando Haddad nesse comitê, como se isso bastasse para dar robustez à proposta. Ora, o problema não é a ausência de articulação entre os ministérios, mas a total submissão da política externa brasileira a ideologias ultrapassadas. A retaliação americana não é comercial, é geopolítica. E o Brasil, ao escolher o lado errado da história — o lado que flerta com Nicolás Maduro, Daniel Ortega e os delírios cubanos —, terá que arcar com as consequências.
Ao tentar simular firmeza, o governo escancara fraqueza. A reação de Trump à perseguição judicial contra Bolsonaro foi clara, previsível e absolutamente coerente com sua retórica de campanha. Ele avisou que defenderia seus aliados e puniria governos hostis. Lula fingiu surpresa. Mas quem em sã consciência acredita que os EUA permaneceriam passivos enquanto o Brasil persegue judicialmente um ex-presidente alinhado com Washington?
O mais cínico de tudo isso é ver o Planalto tentando convencer o empresariado de que a medida é técnica, neutra e necessária. Não é. Trata-se de mais uma tentativa de consolidar uma imagem de resistência, enquanto internamente o país afunda em inflação, juros altos, desindustrialização e fuga de investimentos. A retaliação de Trump é apenas um reflexo do desprestígio internacional que o governo brasileiro conquistou com afinco.
O agronegócio, que foi base da aprovação da lei no Congresso, agora observa com desconfiança o uso político da norma. Esperava proteção real, e não mais um palanque para o petismo radicalizar seu discurso antiamericano. Os empresários do setor já entenderam: estão sendo usados como escudo para uma crise diplomática fabricada no Palácio do Planalto e alimentada pela arrogância do Itamaraty.
No fim das contas, o comitê que Lula quer tornar permanente servirá mais para justificar novas intromissões estatais do que para proteger os interesses nacionais. Um instrumento que deveria funcionar em benefício do país se transformará em ferramenta ideológica — usada a cada novo revés no cenário internacional. Em vez de abrir mercados, o Brasil fecha portas. Em vez de buscar entendimento, impõe barreiras. Tudo isso em nome de uma soberania seletiva, que só é invocada quando convém ao discurso palaciano.
O mais irônico é ver um governo que se diz defensor da paz e do multilateralismo investir em retaliações unilaterais, enquanto prega harmonia em fóruns internacionais. Uma contradição típica de quem não governa para o futuro, mas para satisfazer a militância do presente.
Se Lula realmente se importasse com o Brasil, seu foco seria reconquistar a confiança de parceiros estratégicos e garantir estabilidade jurídica para os investidores. Mas preferiu dobrar a aposta. Pior para nós. Porque enquanto o mundo avança, o Brasil escolhe mais uma vez ficar parado no tempo, amarrado aos delírios de um projeto de poder que já custou caro demais à nossa soberania real — aquela que se constrói com respeito, comércio livre e diplomacia séria.
Com informações Metrópoles
















