
O debate político em Portugal ganhou contornos inesperados nesta semana após a apresentação de um projeto de resolução pelo partido Chega, que recomenda ao governo português o veto à entrada do ministro do Supremo Tribunal Federal do Brasil, Alexandre de Moraes, no território nacional. A iniciativa, apresentada na Assembleia da República, marca mais um capítulo na crescente contestação internacional ao magistrado brasileiro, acusado por amplos setores de promover abusos de autoridade, censura e perseguição política. O tema ganhou ainda mais repercussão após o artigo da jornalista Marília Rodrigues, do site Claudio Dantas, intitulado “Partido de direita em Portugal pede veto à entrada de Alexandre de Moraes no país”, publicado em 10 de setembro de 2025, que detalha com precisão o peso simbólico e político dessa decisão em terras lusitanas.
O Chega, partido de direita nacionalista liderado por André Ventura, justificou o pedido ao governo português alegando que o Brasil vive uma emergência democrática, resultado direto da atuação de Moraes no Supremo. O documento protocolado pelo partido descreve as medidas impostas ao ex-presidente Jair Bolsonaro, como prisão domiciliar, tornozeleira eletrônica e restrições severas ao uso das redes sociais, como exemplos claros de abuso de autoridade. Para a sigla, essas decisões representam um ataque frontal ao devido processo legal e à liberdade política, elementos que sustentam a democracia moderna.
A argumentação não se limita às medidas aplicadas contra Bolsonaro. O Chega aponta também que o inquérito das chamadas fake news abriu espaço para uma escalada de medidas autoritárias, incluindo censura de conteúdos online, bloqueio de contas bancárias, confisco de passaportes e prisões sem denúncia formal. O partido português sustenta que esses procedimentos não apenas fragilizaram o sistema democrático brasileiro, mas também abriram precedentes perigosos para outros países que acompanham o cenário político do Brasil. A crítica, assim, transcende fronteiras, alimentando um debate internacional sobre os limites do poder judicial e os riscos de sua politização.
Em um dos pontos mais incisivos de sua proposta, o Chega recorda que Moraes já teve seu visto para os Estados Unidos revogado, além de enfrentar sanções aplicadas com base na Lei Magnitsky, legislação americana que permite punir indivíduos acusados de corrupção ou violações de direitos humanos. Essa referência sugere que Portugal deve alinhar-se ao posicionamento norte-americano, reforçando a mensagem de que o continente europeu não deve servir de refúgio ou palco para figuras associadas ao que consideram uma derrocada do Estado de direito.
A resolução apresentada na Assembleia da República reforça a necessidade de Portugal se posicionar no cenário internacional em defesa da democracia e do primado da lei. O texto solicita que o governo rejeite qualquer conivência com práticas que comprometam a dignidade humana, os direitos políticos, a livre competição eleitoral e a independência judicial. O posicionamento é, em essência, um chamado para que Lisboa não apenas defenda os seus próprios princípios, mas também sinalize para o mundo que a democracia não pode ser negociada ou relativizada.

André Ventura, líder do Chega, já havia antecipado essa proposta em declarações feitas em agosto, quando afirmou que proporia a proibição da entrada de Moraes em Portugal, além de restringir qualquer vínculo do magistrado com patrimônio ou influência no país. Na mais recente manifestação pública, o partido voltou a destacar sua posição, chamando Moraes de inimigo da democracia e do direito. A retórica dura reflete não apenas o estilo combativo de Ventura, mas também o sentimento crescente de que Portugal deve adotar uma postura firme diante de casos de judicialização da política, especialmente quando envolvem líderes ou ex-líderes democraticamente eleitos.
O impacto político da iniciativa não pode ser subestimado. O Chega conquistou 58 assentos nas últimas eleições parlamentares, igualando o número do Partido Socialista, legenda de esquerda, em um Parlamento que soma 230 cadeiras. Essa representação expressiva consolida o partido como uma das principais forças políticas do país e confere à sua proposta um peso considerável no debate nacional. Ainda que o projeto não tenha data definida para votação, o simples fato de ter sido protocolado já provoca repercussões no cenário político interno e internacional.
A discussão ganha ainda mais relevância por ocorrer em meio ao julgamento de Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal. As medidas judiciais contra o ex-presidente brasileiro são vistas por muitos como exemplo da interferência do Judiciário em disputas de natureza essencialmente política. Para os críticos de Moraes, esse tipo de atuação corrói os alicerces da democracia, minando a confiança das sociedades nas instituições que deveriam garantir equilíbrio e justiça. Para seus defensores, trata-se de uma defesa contra a desinformação e contra ameaças ao processo democrático. Entre esses extremos, surge um debate que não se limita ao Brasil, mas ecoa nas democracias ocidentais.
Ao colocar em pauta a presença de Alexandre de Moraes em território português, o Chega abre espaço para um debate mais amplo sobre os rumos da democracia no século XXI. O caso evidencia como as fronteiras nacionais são insuficientes para conter discussões que, na prática, dizem respeito a todos aqueles que prezam pela liberdade política e pelo primado da lei. Independentemente do resultado da votação futura, o movimento já expõe uma tensão crescente entre a defesa da ordem democrática e o avanço de práticas que muitos classificam como autoritárias.
O artigo de Marília Rodrigues, publicado no site Claudio Dantas, traz à tona a essência dessa controvérsia: o choque entre diferentes visões de democracia, o papel das instituições judiciais e a necessidade de preservar liberdades fundamentais diante da tentação de recorrer ao arbítrio. Ao ecoar essa discussão em Portugal, o texto amplia a percepção de que os desdobramentos no Brasil não são uma questão distante, mas parte de uma batalha maior pela sobrevivência da democracia no Ocidente.
Talvez a grande questão que emerge desse episódio seja até que ponto os países democráticos estão dispostos a aceitar em seu território figuras acusadas de desrespeitar os próprios princípios que sustentam suas nações. A resposta ainda está em aberto, mas a pressão cresce, e a sociedade observa atenta cada passo desse processo, que promete reverberar muito além das fronteiras portuguesas.
Com informações Claudio Dantas
















