
Há algo de profundamente simbólico no Brasil de hoje: enquanto traficantes são tratados com luvas de pelica, duas senhoras de mais de 70 anos são atiradas no cárcere como se fossem líderes do Hamas. É a “defesa da democracia” segundo Alexandre de Moraes, o novo Torquemada da Praça dos Três Poderes. Sim, esse é o Brasil moderno: um país onde o Judiciário anda armado até os dentes contra senhoras com osteoporose, mas abaixa a cabeça para os camaradas de colarinho vermelho e histórico sujo.
A Gazeta do Povo, em editorial impecável, escancarou o absurdo: Iraci Nagoshi (72) e Vildete Guardia (74) estão sendo arrastadas de volta para o sistema prisional brasileiro – aquele mesmo que o próprio STF reconhece como desumano – porque, vejam só, não pediram autorização do Supremo para irem ao médico. Isso mesmo. Segundo Moraes, a liberdade de ir à consulta médica sem carimbo da corte suprema agora é um atentado à pátria. Quem sabe na próxima reedição da Constituição, entre o artigo da inviolabilidade do domicílio e o do habeas corpus, teremos o “Artigo Moraes”: Todo idoso será preso, a menos que demonstre fidelidade total ao regime e peça bênção ao Supremo antes de tomar Buscopan.
Mas não se enganem: esse delírio autoritário não é isolado. Trata-se de um projeto. Um projeto onde a toga se transforma em farda, onde o juiz vira carcereiro, e onde “democracia” é um código cifrado para dizer “faça o que eu mando ou vá para o xilindró”. Enquanto isso, o criminoso de estimação da esquerda faz live no YouTube e dá entrevista para a mídia militante, como se fosse um bastião da resistência. Ah, os tempos modernos…
As duas senhoras não quebraram nada. Não incendiaram nada. Não tramaram nenhum golpe. Foram condenadas com base no revolucionário conceito jurídico da “culpa por estar lá”. Isso mesmo, aquele tipo de jurisprudência que só floresce sob os auspícios de um Supremo que flerta com o autoritarismo, desde que ele venha do lado “certo” da história – aquele lado onde se acende vela para Lula, se beija os pés de ministros e se criminaliza o conservadorismo como se fosse uma doença contagiosa.
E quando as tornozeleiras apitam por uma ida ao médico, Alexandre de Moraes não vê uma necessidade humana, vê uma conspiração diabólica contra a democracia. Em sua cabeça – aparentemente habitada por delírios de controle absoluto – consultas médicas só podem ocorrer com permissão expressa, por escrito, carimbada e talvez endossada pela ONU. Um Judiciário que julga consultas médicas como atos de sabotagem, meus caros, não está defendendo a democracia: está brincando de tirania.
Ah, e o cinismo é completo. O ministro escreve, com a pompa de quem nunca viu um pronto-socorro na vida, que as atividades de “musculação, hidroginástica e pilates” realizadas por uma das senhoras são atividades recreativas, não terapêuticas. Claro. E provavelmente acha que a cadeira de rodas da outra é um acessório fashion. Quem precisa de médico, fisioterapeuta ou dignidade depois dos 70, não é mesmo? Afinal, a verdadeira prioridade nacional é garantir que essas “perigosas matriarcas golpistas” não escapem do braço longuíssimo da justiça-militante.
Enquanto isso, a esquerda, aquela mesma que em 2016 chamava o STF de “golpista”, hoje faz serenata sob as janelas do tribunal. Aqueles que sempre trataram o Judiciário como inimigo do povo agora o reverenciam como um oráculo infalível. Tudo porque o Supremo se tornou útil: útil para calar conservadores, para perseguir opositores, para colocar freio em quem ouse discordar da cartilha progressista da vez.
E quando alguém morre no cárcere antes de ser julgado, como no caso de Cleriston Pereira da Cunha, o silêncio é ensurdecedor. Nenhuma ONG internacional. Nenhum editorial da Folha com lágrimas derramadas sobre o teclado. A morte de um conservador virou dano colateral aceitável no regime da toga iluminada.
E o mais grotesco de tudo é que a PGR, a Procuradoria Geral da República, aquele órgão que deveria zelar pela legalidade e pela justiça, não moveu um músculo em defesa das idosas. Não pediu reavaliação, não protestou, não argumentou. Virou decorativa, como enfeite de vitrine de loja comunista. Porque nesse Brasil da democracia interpretativa, justiça é o que o Supremo diz que é – mesmo quando contradiz a lei.
A extrema-esquerda, claro, vibra. Afinal, o que são duas idosas doentes trancafiadas no inferno do sistema prisional perto da grande causa de defender a democracia contra “golpistas”? Os mesmos que antes gritavam “ninguém solta a mão de ninguém”, agora torcem para que a mão de Iraci e Vildete seja algemada até o fim da vida. Porque no fim das contas, o que a esquerda mais odeia é a liberdade alheia. Querem ver conservador dobrado, ajoelhado, rendido, e – se possível – desaparecido do mapa.
Este episódio, digno de regimes totalitários, não envergonha os que estão no poder. Pelo contrário, eles ostentam com orgulho. Alexandre de Moraes parece convencido de que cada idosa doente que ele joga no xadrez é mais um troféu na vitrine de sua cruzada santa contra os “inimigos da democracia”. E a extrema-esquerda aplaude. Porque é disso que se trata: vingança, não justiça.
No fundo, o que se quer é enviar uma mensagem: ousou discordar? Vai pagar. Tem mais de 70? Azar o seu. Está doente? Melhor ainda, menos resistência. O império da toga sorri enquanto as algemas apertam. E a democracia? Ah, essa virou desculpa para tudo, até para a barbárie travestida de sentença.
Com informações Gazeta do Povo
















