
O ministro Alexandre de Moraes, que gosta de se autoproclamar guardião da democracia, resolveu dar mais uma de suas entrevistas internacionais, desta vez ao Washington Post, e declarou em alto e bom tom que “não há a menor chance de recuar um milímetro sequer” em suas decisões envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro. Ora, não há quem não perceba o tom messiânico do magistrado, que se coloca como uma espécie de salvador da pátria contra uma suposta “doença” chamada autocracia. O curioso é que esse discurso, repetido à exaustão, só convence quem insiste em ignorar a realidade: a democracia brasileira, na visão de Moraes, só sobrevive se for moldada ao gosto dele.
O artigo republicado por Lucas Schroeder, da CNN, destaca justamente a postura inflexível do ministro, como se tal rigidez fosse sinônimo de virtude. Mas o que o público precisa enxergar é o jogo de cena. Quando Moraes afirma que “não há a menor possibilidade de recuar”, o que ele realmente diz é que não importa quantas críticas internacionais receba, nem quantas sanções sofra, ele continuará comandando os destinos políticos do Brasil com uma caneta que, convenientemente, ninguém ousa questionar. Afinal, quando a corte máxima do país passa a agir como tribunal inquisitório, resta pouco espaço para qualquer contestação.
A retórica é digna de um roteiro hollywoodiano: um herói togado, cercado de inimigos internos e externos, que precisa salvar a democracia brasileira de um apocalipse autoritário. O problema é que, quando olhamos os fatos com lupa, percebemos que o espetáculo é muito mais teatral do que jurídico. O julgamento do chamado “Núcleo 1” da denúncia, envolvendo Bolsonaro e aliados, é vendido como a batalha final contra o mal absoluto. Mas será mesmo que estamos diante de uma defesa genuína das instituições, ou apenas de um projeto de poder que se esconde atrás da toga?
Quando Moraes compara o Brasil aos Estados Unidos, tentando ensinar aos norte-americanos a fragilidade da nossa democracia, chega a ser risível. Ele fala em ditaduras passadas como se estivesse diante de um público infantil que precisa de historinhas para entender o presente. Só faltou desenhar. O mais irônico é que, enquanto discursa sobre ditaduras, o ministro ignora completamente que o maior perigo para uma democracia é justamente a concentração de poder em uma única figura — e, neste caso, o protagonista é ele mesmo.
A entrevista tem passagens que beiram o surreal. Questionado sobre a concentração de poder nas suas mãos, Moraes responde com tranquilidade: “meus colegas revisaram mais de 700 ordens minhas… e sabe quantas eu perdi? Nenhuma.” Eis aqui o verdadeiro espírito democrático: o magistrado que nunca perde. O STF, que deveria ser plural e equilibrado, transformou-se em uma extensão da vontade de um homem só. Talvez, em outro contexto, essa afirmação soasse preocupante, mas aqui é vendida como prova de eficiência.
E ainda há quem aplauda. As palavras de Moraes foram embaladas para consumo internacional como se fossem a voz da razão em meio ao caos. Mas quando analisamos sob o prisma do bom senso, percebemos que a narrativa é apenas um verniz sofisticado para justificar a perseguição política travestida de defesa da democracia. A menção às “falsas narrativas” espalhadas por redes sociais é outro ponto curioso: segundo Moraes, só existem mentiras quando a versão apresentada não coincide com a sua. Ou seja, a verdade oficial agora tem CPF e endereço no STF.
O ápice do espetáculo vem quando o ministro comenta as sanções impostas pelos Estados Unidos com base na Lei Magnitsky. Com ares de mártir, Moraes admite que “não é prazeroso passar por isso”, mas garante que continuará firme. Que conveniente! O mesmo que acusa os outros de criar narrativas, agora se coloca como vítima heroica de uma injustiça internacional. É o roteiro perfeito: um juiz incompreendido, lutando contra forças ocultas que querem destruir a democracia. Difícil não notar o paralelo com aqueles filmes em que o protagonista se acha o escolhido.
Enquanto isso, a política nacional segue sequestrada pelo protagonismo de um magistrado que se recusa a admitir qualquer limite. O que deveria ser apenas a aplicação da lei transformou-se em espetáculo de vaidades. E quando a lei é moldada ao sabor do intérprete da vez, deixa de ser justiça e se torna instrumento de poder. A insistência de Moraes em não recuar não é prova de coragem, mas de apego a um projeto pessoal que ultrapassa os limites institucionais.
É preciso que o leitor atento, aquele que não se deixa enganar por manchetes brilhantes e entrevistas pomposas, perceba o que está em jogo. Não se trata de defender ou condenar Bolsonaro, trata-se de perceber que uma democracia não pode depender dos caprichos de um juiz. A liberdade não se protege com discursos inflamados ao Washington Post, mas com instituições sólidas, limites claros e respeito às vozes divergentes.
O futuro do Brasil não pode estar nas mãos de um salvador togado que decide, sozinho, o que é verdade e o que é mentira, o que é democracia e o que é ameaça. A insistência em destruir adversários políticos sob o pretexto de salvar o país pode até render manchetes positivas no exterior, mas internamente corrói a confiança da população nas próprias instituições. E quando essa confiança se perde, a democracia que Moraes diz proteger já não existe.
Com informações CNN Brasil/Washington Post
















