
No palco surreal do jornalismo brasileiro contemporâneo, Mônica Bergamo, aquela colunista sempre pronta a transformar qualquer vento contrário em tempestade política, resolveu mais uma vez servir ao café requentado da velha imprensa. Com a precisão de quem lê manuais de “como fingir isenção enquanto protege o establishment”, Bergamo nos brinda com seu relato sobre o STF e o julgamento de Jair Bolsonaro. É um verdadeiro show de equilibrismo retórico: criticar sem criticar, questionar sem questionar, e, claro, empunhar o bastão moral contra quem ousa discordar da narrativa oficial. O que não se entende é como alguém ainda acredita que esses colunistas de carteirinha conseguem oferecer qualquer vestígio de imparcialidade.
O alvo, desta vez, é o governador Tarcísio de Freitas, acusado de ousar desafiar a aura sagrada do Supremo. Chamá-lo de tirano? Para Bergamo, isso é praticamente um escândalo nacional. O que ela não explica — ou finge não ver — é que Tarcísio apenas descreveu o que milhões de brasileiros sentem: um STF politizado, em que decisões judiciais se confundem perigosamente com interesses partidários. Mas, para a colunista, qualquer voz crítica deve ser reduzida a gritos de “radicalismo” ou “ataque à democracia”. Ironia suprema: é exatamente esse tipo de narrativa que demonstra o quanto a velha imprensa perdeu a bússola do jornalismo.
E lá está Barroso, o eterno magistrado-paladino, declarando que o STF “julga à luz do dia” e que, na ditadura, tudo era feito às sombras. Um discurso digno de Oscar de melhor atuação em hipocrisia. Esqueçamos, por um instante, que Barroso foi protagonista de decisões que abalaram a lógica jurídica, apoiou medidas polêmicas e participou de processos que, na prática, pareciam mais espetáculos midiáticos do que justiça. Esqueçamos também que a ditadura militar foi demonizada com precisão seletiva, como se ninguém no STF tivesse alguma responsabilidade histórica no que viria depois. A narrativa é cristalina: Barroso vive para nos lembrar que ele e seus pares são os guardiões da moralidade, enquanto qualquer um que levante uma voz discordante é, automaticamente, inimigo da democracia.
A coluna de Bergamo, naturalmente, transforma cada crítica em espetáculo de vilania. Tarcísio de Freitas, ao chamar Alexandre de Moraes de “ditador”, não estaria fazendo uma observação política; estaria, segundo Bergamo, cometendo o pecado supremo de contestar a autoridade. Ao mesmo tempo, o jornalista da Folha ignora o fato de que decisões autoritárias dentro do próprio STF já se tornaram rotina — desde bloqueios de manifestações a perseguições judiciais a opositores políticos. Mas por que se incomodar com fatos, quando se pode construir narrativas de puro moralismo seletivo? O leitor, claro, é convidado a aplaudir o espetáculo, sem perceber que está sendo manipulado com sutileza cirúrgica.
E a história se repete: a velha imprensa se recusa a encarar a realidade do país. Para Bergamo, qualquer crítica ao STF é sinônimo de retorno à ditadura, como se cidadãos preocupados com o estado de direito fossem fantasmagorias do passado autoritário. É fascinante observar como um jornalismo que se diz “independente” consegue, ao mesmo tempo, ignorar escândalos, minimizar injustiças e transformar ministros em heróis sem precisar provar nada. Em outras palavras, estamos diante de um teatro de marionetes, em que Barroso segura as cordas e Bergamo aplaude do camarote.
O que se percebe é que, em vez de informar, a narrativa oficial busca moldar a percepção do público. O julgamento de Bolsonaro se tornou apenas um pretexto para reforçar a imagem de um STF impecável e moralmente superior. Toda discordância é criminalizada, todo questionamento é demonizado. E, claro, a Folha cumpre seu papel de exibir indignação seletiva, protegendo seus favoritos e atacando quem ousa desviar do roteiro. A audácia é tanta que a própria acusação de “ditadura” é transformada em piada moralizante: é como se a história fosse escrita apenas para legitimar o presente, sem nenhum vínculo com a realidade concreta das ruas e dos tribunais.
Enquanto isso, o público, muitas vezes desatento, é levado a acreditar que o Brasil é uma ópera em que os ministros do STF são divindades intocáveis, e qualquer cidadão que levanta a voz é um herege da democracia. A velha imprensa — Bergamo à frente, com seu caderninho de anotações preciosas e contatos privilegiados — se consolida como a guardiã da narrativa oficial, usando palavras como escudos, manchetes como armas e o prestígio histórico como blindagem. O resultado é previsível: uma população que, cada vez mais, percebe que não está sendo informada, mas doutrinada.
E o mais irônico de tudo é que, enquanto Bergamo e Barroso defendem o “julgamento à luz do dia”, todos sabemos que a transparência tem limites cuidadosamente calibrados: apenas aqueles que seguem a narrativa oficial têm direito à visibilidade, enquanto qualquer discrepância é apagada, ignorada ou ridicularizada. A luz do dia, portanto, é seletiva; a justiça, fragmentada; e a imprensa, uma artista de circo capaz de transformar críticas legítimas em episódios de terror político.
No fim, resta a impressão de que estamos assistindo a uma encenação constante, em que a velha imprensa, armada com suas colunas, entrevistas e redes sociais, constrói um mundo paralelo. Um mundo em que Barroso e seus pares são infalíveis, Tarcísio de Freitas é vilão, e o público deve aplaudir, concordar e, principalmente, não questionar. É uma dança meticulosamente coreografada, uma narrativa de moralidade seletiva e uma lição clara: no Brasil de hoje, não se discute; aplaude-se ou se silencia. E, nesse espetáculo, Bergamo continua brilhando, estrela absoluta do jornalismo que parece mais teatro do que fato.
Com informações Folha de S.Paulo
















