
Se você ainda leva a sério a imparcialidade da Justiça brasileira, talvez seja a hora de dar uma boa gargalhada. Ou cair em prantos. Porque, neste circo togado em que transformaram o Supremo Tribunal Federal, o sujeito que senta numa cadeira vira réu de tentativa de golpe, enquanto o que manda matar um médico por causa de imóvel em Ipanema passa anos zanzando entre instâncias até ser condenado com um sonoro “ok, agora vai”.
Sim, você leu certo. O justiceiro iluminado do STF, Alexandre de Moraes, resolveu que o cidadão Fábio Alexandre de Oliveira, que ousou pousar suas nádegas na gloriosa “cadeira do Xandão”, deve pagar com nada menos que 17 anos de cadeia. Isso mesmo, 17 anos. Não por espancar alguém, nem por matar, nem por roubar cofres públicos — mas por sentar. Ah, e claro, por dizer palavras de baixo calão, coisa que, convenhamos, até ministro já fez (quem lembra dos áudios do Joesley, né?). Mas quando é o “povo” que fala, aí vira crime contra o Estado Democrático de Direito.
O texto do jornalista Fábio Serapião, publicado no Metrópoles, relata com ar de solenidade o voto do ministro Moraes, como se estivéssemos diante de um julgamento histórico, digno de Nuremberg. Fábio Alexandre, o novo “inimigo público nº 1”, segundo o relato, é culpado de tudo: associação criminosa armada, tentativa de golpe de Estado, abolição violenta do regime democrático, entre outros nomes pomposos que enchem a boca dos iluministas de toga.
Enquanto isso, no mesmo dia, no mesmo Brasil, a jornalista Vera Araújo, de O Globo, reporta de forma quase protocolar que o ex-deputado estadual Geraldo Moreira foi condenado a 16 anos de prisão — um a menos do que o “terrorista da cadeira”. Detalhe: Geraldo foi condenado por ser mandante de homicídio qualificado, ou seja, por mandar matar um médico. E por quê? Motivo nobre: briga por imóvel com a ex-mulher. Porque no Brasil da toga vermelha, matar pode. Sentar, não.

É aí que você começa a entender a ópera bufa. Porque o mesmo STF que se estremece todo com um vídeo no TikTok de alguém gritando “aqui é o povo que manda nessa porra, caralho”, é o mesmo que leva décadas para julgar um homicídio frio, premeditado e com testemunhas. Geraldo Moreira transitou pelo TJ, STJ, voltou para a Alerj, recorreu ao Supremo e só agora, em 2025 — 17 anos após o crime — ouviu a sentença. Mas vá sentar na cadeira errada que o martelo desce em menos de dois anos.
Que timing! Que agilidade! Que senso de prioridade, senhoras e senhores! A toga virou capa de super-herói com filtro ideológico. Se você for bolsonarista, conservador, patriota ou simplesmente discordar da verdade única imposta por Brasília, basta uma filmagem ruim e um áudio exaltado para virar inimigo do Estado. Já se você for ex-deputado, envolvido com PMs e milicianos, e resolver mandar matar um desafeto, pode ficar tranquilo: a justiça será lenta, garantista e compreensiva.
A ironia é que o próprio Serapião, ao reportar o caso da cadeira, tenta dar um tom grave ao uso de luvas e máscaras pelo réu. Como se a única explicação para isso fosse a premeditação de crimes violentos. Alguém avise ao jornalista que em manifestações com gás lacrimogêneo, a maioria dos manifestantes — de direita, esquerda ou torcida organizada — usa máscara e luva. Mas quando o alvo é conservador, a interpretação é sempre a pior possível.
Agora veja o contraste. Na matéria de Vera Araújo, quase não há indignação. O assassinato é tratado como mais um caso judicial. Nenhuma menção à ameaça à democracia, nenhum alerta sobre violência política. Afinal, o criminoso não gritou contra as urnas nem sentou na poltrona errada. Apenas mandou matar. Aparentemente, isso não é tão grave.
E o povo que assiste a tudo isso? Fica dividido entre o medo e o riso. Medo do Estado totalitário que se desenha com ajuda de ministros messiânicos e jornalistas engajados. E riso diante do ridículo institucionalizado, onde um vídeo viral vale mais que provas materiais, e o STF virou tribunal de honra própria.
Não é mais sobre justiça. É sobre vingança política, sobre perseguição seletiva e sobre manter a narrativa única: a de que o 8 de Janeiro foi um golpe militar armado orquestrado por senhores de chinelo e celular. É sobre enfiar na cabeça do povo, à força, que questionar eleição é terrorismo, mas soltar bandido é direito humano. Que destruir reputações conservadoras é necessário, mas tocar em corruptos históricos é “lawfare”.
Enquanto isso, o “Xandão” segue intocável, legislando, executando e julgando. Decide sozinho o que é liberdade e o que é crime. E a imprensa, como boa assessoria de imprensa disfarçada, noticia tudo como dogma, sem questionar contradições óbvias. O que seria do Brasil sem esses “democratas” da capa preta?
No fim das contas, resta ao povo uma certeza: sentar na cadeira errada custa mais caro do que tirar a vida de alguém. Essa é a nova jurisprudência do Brasil moderno. O novo normal. O novo pesadelo.
Mas fique tranquilo, caro leitor do Conservadores Online. Da próxima vez que se indignar com o sistema, não sente. Dance. Quem sabe, assim, escape de 17 anos de prisão — e ganhe até um quadro no Fantástico.
Com informações Metrópoles/O Globo
















