
Dizem que, em política, o silêncio também fala. E quando se trata de um governador eleito sob a bandeira do conservadorismo liberal, esse silêncio pode se tornar ensurdecedor. O que aconteceu nesta semana, no luxuoso salão da Arko Conference 2025, não foi apenas um gesto protocolar ou uma omissão estratégica: foi uma demonstração inequívoca de que Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, decidiu deliberadamente virar as costas para a base que o elegeu e para o líder que o alavancou — Jair Bolsonaro.
Enquanto Donald Trump denunciava abertamente a perseguição política sofrida por Bolsonaro, e enquanto a nova tarifa de 50% sobre produtos brasileiros imposta pelos EUA era justificada, em parte, pela quebra institucional e a ausência de garantias democráticas no Brasil, o governador de São Paulo preferiu se calar. E não apenas se calou: reuniu-se com empresários e representantes da embaixada americana como se tudo estivesse dentro da normalidade democrática. Falou de “diálogo”, de “fortalecimento de parcerias” e de “compromisso com o setor produtivo”. Mas em momento algum citou o nome de Bolsonaro, ou ao menos reconheceu o contexto político do tarifaço — uma medida claramente direcionada contra o desmantelamento institucional promovido pelo STF e endossado por um governo federal que trabalha contra o próprio país.
Essa atitude não é apenas decepcionante. Ela é imperdoável.
Tarcísio chegou ao governo do estado de São Paulo como um nome técnico, mas com respaldo político. O eleitorado conservador paulista não votou apenas no engenheiro competente; votou no nome que carregava consigo o DNA do bolsonarismo: coragem, defesa da liberdade, enfrentamento ao sistema e fidelidade aos princípios conservadores. Porém, o que se viu neste episódio foi exatamente o oposto. Em vez de enfrentar, contemporizou. Em vez de denunciar, silenciou. Em vez de defender, se omitiu.
Mais do que isso, preferiu manter um verniz de “estadista moderado”, agradando os empresários, os diplomatas e a mídia que, até ontem, o chamava de “capacho de Bolsonaro”. Agora, com esse novo comportamento, ganha elogios moderados de quem sempre o combateu — e o desprezo de quem sempre acreditou nele.
É compreensível que um governador de São Paulo, estado que representa mais de 30% do PIB nacional, busque preservar as relações comerciais com os Estados Unidos. Mas isso não pode ser feito à custa de princípios. É possível dialogar com firmeza, sem submissão. É possível defender a economia paulista sem abdicar da verdade política. O tarifaço de Trump é, sim, uma resposta à derrocada da liberdade no Brasil — ignorar isso é negar a realidade.
O mais irônico é que, no mesmo evento em que Tarcísio discursava como um verdadeiro tecnocrata globalista, Eduardo Bolsonaro — este sim fiel ao seu papel — lembrava nas redes sociais que a omissão de Tarcísio é cúmplice da destruição econômica e institucional do país. E como foi a resposta do governador? Uma frase lacônica, que mais parece uma nota de rodapé mal escrita: “questão de ponto de vista”. Ora, desde quando a liberdade de um ex-presidente perseguido é uma mera questão de ponto de vista? Desde quando a destruição econômica provocada por decisões políticas ilegítimas é apenas uma variação interpretativa?
Não se trata de vaidade ferida ou de fidelidade pessoal. Trata-se de coerência. O bolsonarismo não é um nome — é um movimento. E esse movimento, goste-se ou não, representa milhões de brasileiros que não se renderam à ditadura do Judiciário, que não aceitaram a censura disfarçada de regulação, que não admitem que a política seja sequestrada por conchavos e conveniências. O silêncio de Tarcísio não é apenas político — é uma ruptura moral com tudo isso.
E aqui mora o perigo. Quando líderes que foram eleitos com base em valores abandonam esses valores para “dialogar”, para “mediar”, para “evitar polêmicas”, abrem caminho para que o sistema que combatíamos se fortaleça. A história mostra: quem cede um milímetro à tirania, entrega quilômetros à injustiça. O “centro” que Tarcísio tenta ocupar é o mesmo terreno minado onde já caíram tantos outros: o da indecisão, o da ambiguidade, o da falta de coragem.
O gesto de não mencionar Bolsonaro em um momento tão crítico, enquanto o próprio presidente dos EUA o menciona como vítima de um sistema autoritário, revela mais do que cálculo político: revela covardia. E covardia é um veneno letal no campo conservador, onde os valores não são negociáveis e a verdade não é moldada ao gosto do interlocutor.
Ao final do dia, o que resta é a frustração de uma base traída. A esperança depositada em um nome que prometia continuar a luta contra o sistema e, no entanto, escolheu o conforto dos tapetes diplomáticos e o aplauso morno dos empresários amedrontados. Não se ganha respeito vendendo a alma — e foi exatamente isso que Tarcísio começou a fazer.
Como jornalista conservador, posso afirmar com segurança: o artigo assinado por Ramiro Brites e Vinicius Passarelli, publicado no portal Metrópoles, expõe um dos momentos mais vergonhosos da trajetória recente do governador Tarcísio de Freitas. Não se trata de opinião, mas de um retrato fiel de quem, ao primeiro teste real de lealdade, falhou de forma humilhante.
Uma traição aos eleitores conservadores paulistas e ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Um gesto calculado, frio, camuflado de pragmatismo, mas com um custo altíssimo: a perda da confiança de quem ainda acreditava que São Paulo poderia ser o bastião da resistência conservadora no Brasil.
E quando um líder esquece de onde veio, o povo não esquece para onde ele vai.
Leia a nota de Tarcísio de Freitas, na íntegra
“O Governo do Estado de São Paulo reuniu nesta terça-feira (15) o encarregado de negócios da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, Gabriel Escobar, e empresários de setores da economia paulista que concentram a pauta de exportações, a exemplo do café, carne, citricultura, máquinas e equipamentos, sucroalcooleiro, energia, papel e celulose, aviação e transporte de cargas.
Durante o encontro, o governador Tarcísio de Freitas falou da importância do diálogo e estabelecimento de caminhos para fortalecer as parcerias da indústria paulista com os Estados Unidos. Os representantes do Estado, junto aos empresários, expuseram com exemplos o potencial impacto das novas tarifas, inclusive nos preços de produtos americanos. Foram colocadas também pelos empresários presentes as preocupações dos segmentos mais expostos aos impactos da elevação de tarifas comerciais anunciadas pelo governo norte-americano.
O Governo do Estado de São Paulo reforça o seu compromisso com o produtor, empresários e agronegócio paulista, e fará todo esforço necessário para garantir o melhor desfecho ao setor produtivo, bem como seus milhões de empregos gerados direta e indiretamente”.
Com informações Metrópoles
















