
O Brasil assiste, mais uma vez, à degradação da justiça em nome da velha proteção aos de sempre. A Operação Sem Desconto, que investiga desvios bilionários de aposentados do INSS — uma das camadas mais frágeis da população — foi deliberadamente desacelerada por ninguém menos que Dias Toffoli, o mesmo que já foi advogado do PT. A escolha do relator no STF não foi casual, tampouco neutra. Foi um movimento cirúrgico e politicamente conveniente, bem no estilo da velha esquerda que tanto diz defender o “povo”, mas que sistematicamente esvazia seus bolsos enquanto acoberta seus próprios comparsas.
Toffoli assumiu a relatoria do caso sem sequer apresentar fundamentação convincente. A alegação de “conexão” com outro inquérito sob sua responsabilidade — aquele envolvendo Sergio Moro e o advogado Tacla Durán — é uma ginástica jurídica que beira o escárnio. A tentativa de vincular um esquema bilionário de corrupção ativa e passiva no INSS a uma medida provisória editada no governo Bolsonaro soa como um roteiro mal escrito de novela jurídica. Não convence nem mesmo os mais ingênuos.
Mas o efeito prático dessa manobra foi claro: paralisar as investigações. A Polícia Federal, o Ministério Público Federal e a Justiça Federal ficaram em compasso de espera, com medidas urgentes de bloqueio de bens congeladas por “prudência”. É prudente permitir que os criminosos lavem dinheiro e transfiram patrimônios enquanto o ministro decide se irá ou não “ratificar” as decisões da primeira instância? É prudente colocar em risco o ressarcimento aos aposentados, enquanto o tempo corre a favor dos culpados?
Se fosse um caso envolvendo membros da oposição ou qualquer resquício do antigo governo, a celeuma midiática estaria a pleno vapor. Mas não, como há indícios de envolvimento de sindicatos ligados ao governo Lula — inclusive com a menção ao irmão do presidente em esquemas de desvio —, o silêncio é estratégico. O foco foi desviado para o suposto “ponto de origem” do golpe: a tal medida provisória de Bolsonaro. Ora, querer jogar no colo do ex-presidente a culpa por um esquema montado e operado por sindicatos com vínculos históricos com o PT é de uma desonestidade intelectual revoltante. O que há de novo nessa narrativa? Nada. A mesma fórmula desgastada: culpabilizar os adversários para encobrir os próprios crimes.
Toffoli, que no passado proibiu Lula de ir ao enterro do irmão, hoje age com uma desenvoltura suspeita para reaproximar-se do presidente. Coincidência? Claro que não. São os mesmos movimentos táticos de um sistema que opera em função da blindagem dos poderosos, desde que sejam os poderosos certos. E o resultado é um só: os culpados continuam soltos, os bens desviados continuam fora do alcance do Estado e o povo — sempre o povo — paga a conta.
Além de tudo, o delegado Rafael Dantas, que sequer fazia parte das investigações do INSS, foi premiado com protagonismo no caso. Transferido para São Paulo, longe do núcleo das apurações, Dantas agora está sob a proteção direta de Toffoli. A imprensa informa que Dantas é próximo de Paulo Maiurino, ex-diretor da PF no governo Bolsonaro, e que sua nomeação foi chancelada pelo próprio Toffoli. Um enredo de conveniências que, no mínimo, exige explicações públicas. Mas a pergunta permanece: por que um delegado que não participava da operação foi alçado a figura central da apuração? Por que foi afastado da equipe original em Brasília? Quem tem medo da verdade?
Enquanto isso, a CPMI do INSS, que poderia ser um instrumento poderoso de investigação, também permanece estagnada. O presidente da Câmara, Hugo Motta, até agora não indicou o relator. O senador Omar Aziz, notório aliado do governo, já foi escolhido como presidente da comissão. Tudo aponta para mais uma comissão com cheiro de pizza. O senador Humberto Costa, também do PT, já antecipa que a CPMI “perdeu força” — não por falta de provas, mas porque as investigações chegaram perto demais do Centrão e dos sindicatos amigos do governo. E quando isso acontece, todos na velha política começam a pisar em ovos.
A desculpa de que o ressarcimento aos aposentados está em curso é frágil. O Estado está pagando com dinheiro público por um roubo que deveria ser estancado pela devolução dos valores pelos verdadeiros responsáveis. Mas como recuperar esses bilhões se a própria justiça superior trava os bloqueios de bens e posterga as decisões mais urgentes? A mensagem é clara: se você roubar do povo, mas estiver do lado certo, o sistema cuida de você. E o povo que espere o pagamento em parcelas, enquanto os culpados esvaziam contas e lavam dinheiro sem qualquer incômodo.
O silêncio do Congresso, a inação do STF e a lentidão da PF — tudo sob a sombra de decisões estratégicas — reforçam a percepção de que estamos diante de uma máquina pública comprometida com interesses escusos. O Brasil precisa urgentemente romper com esse ciclo de impunidade seletiva. Não se combate a corrupção apontando dedos para governos passados enquanto se coloca uma cortina de fumaça sobre os aliados atuais.
É preciso cobrar firmeza da Justiça, transparência das autoridades e responsabilidade daqueles que se dizem representantes do povo. O país não pode continuar a ser refém de uma justiça que se ajoelha diante de conveniências políticas. Chega de ministros-relatores que aparecem nos momentos-chave apenas para favorecer velhos aliados. Chega de investigações que só andam quando os alvos são os “inimigos ideológicos”.
A moral pública não pode continuar sendo tratada como moeda de troca em Brasília. Os brasileiros, especialmente os aposentados lesados nesse esquema, merecem respostas — e não mais manobras protelatórias. Ou encaramos a verdade de frente, com coragem, ou vamos continuar assistindo ao teatro da impunidade, onde os protagonistas são sempre os mesmos e as vítimas, invariavelmente, o povo.
Com informações Piaui/Folha UOL
















